
Dezembro 2004 |
Estúdio: Tattoo na Paz
Cidade: Santos - SP |
Por:
Amana Rodrigues
Ana Lua é o nome que uso há 11 anos.
Procurava na época uma assinatura para minhas
telas e retratos. O “Lua” é um
Lúcia cortado. Achei um nome simples, com
um som gostoso e sua simbologia é boa (a
lua é uma figura fortemente feminina, passa
por fases como as pessoas, influencia a natureza
e as marés… envolta em mistério
e poesia) é um nome que me trouxe sorte e
tem a ver comigo por dentro. Fale-nos
um pouco sobre seu “período de treino”
antes de se tornar uma tatuadora e da importância
de um início de carreira consciente e bem
orientado:
Treinei durante três
meses tatuando em melões… isso mesmo,
melões! Isso me ajudou a conseguir segurança
no traço mesmo com o peso da máquina
e a trepidação, que eram novas para
mim, fazia desenhos complexos, sombreados e coloridos.
Esse treino, junto com minha experiência
com desenho e pintura me permitiram não
“estragar” a pele das primeiras “cobaias”.
A primeira pele humana que toquei com a agulha
foi um retoque nos traços de uma tatuagem
antiga no braço do Medonho. Eu estava nervosa
e uma torcida de amigos dele se formou atrás
de mim… inesquecível. O tempo foi
passando e não parei mais. Faz um ano e
meio que tatuo e cada conselho que recebi dos
meus amigos foi muito importante para mim.
Uma coisa que acontece muito no meio
da tatuagem é um profissional ver que outra
pessoa tem talento e realmente incentivá-la
a tatuar. Mesmo que haja concorrência, como
em todos os setores comerciais, isto, em particular,
é uma característica muito forte
não só do universo da tatuagem,
mas do universo artístico em si. E com
você? Como aconteceu sua entrada para este
meio?
Eu já trabalhava com arte há
12 anos, quando em 2002, na 6a Convenção
Internacional de Tatuagem, cheguei com meus desenhos
de baixo do braço, fruto de oito meses
de trabalho. Lancei-me de cabeça a conhecer
toda aquela gente e mostrar-lhes meus desenhos.
Foi muito bom… estímulo e apoio de
todos os lados. ”Você precisa tatuar!”,
“você está perdendo tempo,
tem que pegar logo numa máquina de tatuar,
seus desenhos são ótimos!”,
eles me diziam. O fato é que fui “fisgada”.
Não parava de pensar no assunto e comecei
a freqüentar os estúdios aqui de Santos.
No Tattoo na Paz comprei minhas primeiras máquinas
e os tatuadores Pablo Delic e Renato Medonho começaram
a me ensinar, dando toques e dicas e respondendo
as minhas perguntas.
Como
têm sido suas participações
nas convenções de tatuagem?
Muito boas, nas conversas recebo sugestões
de temas para as próximas séries,
revejo amigos, recebo o carinho e o incentivo
de gente de todas as partes do país. É
o momento onde através das reações
das pessoas percebo o resultado de tanto esforço
e trabalho.
Qual é a importância destes
eventos na sua opinião?
A importância de manter os profissionais
em contato, compartilhar informações,
admirar a qualidade e o valor do trabalho que
anda sendo feito, a compra e o acesso aos materiais
e séries, é difícil resumir
tudo. Lembro que em outubro deste ano, na hora
em que seria anunciado o resultado dos concursos,
senti a vibração e o entusiasmo
de toda aquela gente, senti o quanto era bom estar
ali com uma multidão de pessoas que compartilham
comigo o amor pela tatuagem e pelo desenho, foi
emocionante.
Como surgiu seu interesse pelos seres
fantásticos e místicos?
Sempre fui “fissurada” em mitologia,
contos de fadas e estórias fantásticas.
Acho que sentir o lado mágico das coisas
torna a vida mais interessante e o dia a dia mais
saboroso. Sempre pesquisei estes temas, colecionando
estórias e sonhos.
Hoje em dia, muito mais pessoas sabem
o que são “hobbits”, “goblins”,
“elfos” e outros seres fantásticos,
que têm aparecido com freqüência
no cinema, isso influencia de alguma forma na
preferência das pessoas por tatuagens com
esta temática?
Acho que nem tanto. O fascínio das pessoas
pelo fantástico é algo que sempre
existiu. Heróis, dragões, seres
alados e mágicos nos atraem por serem o
oposto do que encontramos na competição
e na rotina do dia a dia nas cidades. As pessoas
precisam sonhar e o papel do cinema e seus efeitos
especiais é o mesmo dos antigos contadores
de estórias, atiçar a imaginação
humana.
O cinema, na sua opinião, tem
influenciado as pessoas a se tatuarem?
Um
pouco. O que está influenciando mesmo as
pessoas a se tatuar é a quebra dos preconceitos
antigos. A tatuagem deixou de ser algo mal visto
e se tornou uma manifestação natural
das personalidades e gostos. O ser humano sempre
se tatuou ao longo da história, seja por
vaidade, proteção ou ritual de passagem.
Sem medo da reprovação da sociedade
as pessoas se sentem livres para enfeitar seus
corpos permanentemente.
Sua arte já abrangeu os universos
do desenho, da pintura, da escultura e da tatuagem.
Quais destas técnicas lhe proporcionam
mais prazer? Porque?
Atualmente são as séries e a tatuagem.
Nas séries acabo me surpreendendo e me
divertindo com o que vai nascendo, as expressões,
as cores… é como se uma parte nascesse
de mim e outra eu “pescasse” daquele
lugar misterioso de onde vem a inspiração
dos artistas. Na tatuagem a arte adquire um brilho
e uma força especiais sobre a pele, você
sabe que vai ser para a vida inteira e o desenho
se integra com a anatomia. Cada pessoa é
um desafio, uma idéia nova de desenho,
as coberturas de cicatrizes e tatuagens antigas
me obrigam a criar desenhos sob medida, e o sorriso
e a surpresa da pessoa ao ver a tattoo pronta…
é demais!
Porque se decidiu pelo curso de Artes
Plásticas?
Foi uma conseqüência natural do que
sempre gostei de fazer. Desenho e pintura são
minhas paixões desde pequena… observo
o mundo real e imaginário e registro no
papel a minha maneira. Aconselharam-me a fazer
outra faculdade, mas não teve jeito, o
que eu queria fazer mesmo era Artes Plásticas.
Quais são as maiores diferenças
entre se fazer um desenho que tenha o papel ou
a tela, como destino final e aquele que do papel,
passará ainda para a pele, possivelmente
de várias pessoas e através de vários
artistas diferentes?
O desenho para tatuagem nasce pensando nas particularidades
e limitações da técnica,
por exemplo: não se devem tatuar desenhos
muito detalhados e pequenos demais, assim os desenhos
nas séries já se encontram no tamanho
ideal, não se deve diminuí-los,
pois a longo prazo ficaria um desenho “confuso”
na pele. Vários destes pontos devem ser
levados em conta na hora da criação,
desde os esboços que nascem soltos no papel
até a arte final que vemos nas séries
existe um período de amadurecimento aonde
o desenho vai sendo lapidado.
Como
é a sensação de ver suas
criações sendo marcas pessoais de
tantas pessoas?
É muito boa, é como se todas estas
pessoas tivessem algo em comum comigo, elas se
identificaram com o que eu criei, o que foi importante
para mim foi importante para elas também.
É difícil explicar esta sensação
de ligação com tantas pessoas que
eu nem conheço, é definitivamente
muito boa!
Você pensa nisto enquanto está
desenhando?
Na verdade não, na hora eu só deixo
nascer os desenhos, a razão fica de fundo
só me lembrando do que funciona ou não
em tatuagem. Quem comanda mesmo é o instinto,
eu só paro de mexer no desenho quando sinto
que ele esta vivo, adquiriu uma personalidade
própria.
Como você lida com a pirataria
que existe em nosso país?
Primeiro procuro o máximo de qualidade
nas séries originais. As cópias
coloridas eu tiro diretamente dos originais, feitos
com nanquim e lápis de cor, saem explodindo
em cores e detalhes, e o fundo é cor de
pele, liso e perfeito. Somente a compra destas
séries originais, diretamente, é
que realmente autoriza o tatuador a trabalhar
com os desenhos. Nas convenções
converso com os tatuadores, tento mostrar-lhes
que existe uma pessoa por trás dos desenhos
que se esforçou em fazê-los com carinho.
Vendo as séries pelo preço de uma
tatuagem media, facilito o pagamento quando necessário
e em cada folha das series existe o endereço
do meu site para que eles possam fazer contato
direto comigo. Cada vez mais tatuadores tem procurado
a qualidade das séries originais, conscientizando-se
da importância de valorizar o trabalho de
quem cria os desenhos. São estes os meus
anjos da guarda, os artistas que reconhecem o
trabalho de outro artista. Este ano fiz um cadastro
detalhado dos estúdios que compraram as
series Jade e Ametista. As pessoas sempre me mandam
e-mails perguntando quem tem meus desenhos na
sua cidade e eu tenho lhes mandado o nome e endereços
destes estúdios.
Como é seu trabalho com retratos?
Retrato pessoas há quinze anos, sempre
gostei de desenhar rostos, é interessante
ir além do primeiro olhar e realmente prestar
atenção ao rosto das pessoas, imaginar
o que se esconde atrás dos olhos, a história
que moldou aqueles traços.
Qual
é a diferença entre o público
que você retrata e o público que
você tatua?
Geralmente, o público que me procura pelos
retratos em sua maioria, vem atrás de um
presente diferente para alguém que ama.
Já quem me procura pelas tatuagens me procura
para manifestar algo especial na pele, um desenho
diferente que parece ter nascido para estar lá,
um ato de amor a si mesmo, no bom sentido.
Como é o desenho que você
escolheu para ter em seu corpo e por que se decidiu
por ele?
Em meu corpo tenho por enquanto, somente uma
tatuagem, feita pelo Pablo, é uma borboleta
em arabescos dourados na região lombar,
para mim um símbolo de renascimento, de
“sair do casulo”, vontade de voar.
Você acha que as origens da tatuagem,
como sendo um ato ritualístico de passagem
de fase, proteção, reconhecimento
e outros, ainda estão, de alguma forma,
presentes na escolha das pessoas?
Acho que sim, eu pessoalmente prefiro tatuar
temas com significados positivos, acho que psicologicamente
a tatuagem pode ser uma força de estímulo,
até mesmo de proteção. Pode
parecer maluquice, mas dá para resgatar
das origens da tatuagem, um pouco do seu lado
mágico, um marco de passagem, libertação.
O que você acha mais relevante
na hora em que uma pessoa decide ter uma tatuagem?
Considero que na hora da pessoa escolher o desenho
esqueça moda, medos e só escute
o coração. Para escolher o tatuador,
além das observações práticas
e importantes de higiene e assepsia, deve levar
em consideração a sua empatia com
o tatuador, mais do que preço, o que conta
é que a pessoa goste e se identifique com
o traço do profissional, a paixão
é a marca individual de cada artista. Tattoo
é para sempre, uma parte de você,
o mesmo desenho tatuado por dois artistas diferentes
muda completamente. Escute os conselhos do tatuador
quanto ao tamanho, local e as cores ideais para
a sua pele. Se o estilo do trabalho do tatuador
é o que você procura, confie nele
e torne sua tatuagem especial.
Você tem um site na Internet. Como
você vê a relação da
tatuagem com está mídia daqui pra
frente?
A
tatuagem tem na Internet uma ferramenta importantíssima.
Através dela o tatuador pode divulgar o
seu trabalho, trocar informações
com outros tatuadores, educar e informar seu público,
comprar materiais e etc... É através
do meu site que as pessoas conhecem e compram
minhas séries, conhecem meu trabalho como
tatuadora e podem conversar comigo.
Conte-nos um pouco sobre sua nova série
de desenhos e seus planos para o futuro:
Este ano nasceram duas novas séries: Jade
e Ametista. São 123 desenhos novos, frutos
do meu encontro com as pessoas, minhas pesquisas,
sonhos e fantasias. Desta vez incluí alguns
desenhos de fadas, feitos para serem tatuados
em tamanhos pequenos. São tartarugas, sapos,
anjos, um Buda, feito especialmente para mulheres
e muitos outros temas. Meus planos para o futuro?
Continuar desenhando, tatuando, e o que mais a
inspiração mandar.
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