Brasil, 20 de agosto de 2008
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 Dezembro 2004
Estúdio: Tattoo na Paz Cidade: Santos - SP

Por: Amana Rodrigues

Ana Lua é o nome que uso há 11 anos. Procurava na época uma assinatura para minhas telas e retratos. O “Lua” é um Lúcia cortado. Achei um nome simples, com um som gostoso e sua simbologia é boa (a lua é uma figura fortemente feminina, passa por fases como as pessoas, influencia a natureza e as marés… envolta em mistério e poesia) é um nome que me trouxe sorte e tem a ver comigo por dentro.

Fale-nos um pouco sobre seu “período de treino” antes de se tornar uma tatuadora e da importância de um início de carreira consciente e bem orientado:
Treinei durante três meses tatuando em melões… isso mesmo, melões! Isso me ajudou a conseguir segurança no traço mesmo com o peso da máquina e a trepidação, que eram novas para mim, fazia desenhos complexos, sombreados e coloridos. Esse treino, junto com minha experiência com desenho e pintura me permitiram não “estragar” a pele das primeiras “cobaias”. A primeira pele humana que toquei com a agulha foi um retoque nos traços de uma tatuagem antiga no braço do Medonho. Eu estava nervosa e uma torcida de amigos dele se formou atrás de mim… inesquecível. O tempo foi passando e não parei mais. Faz um ano e meio que tatuo e cada conselho que recebi dos meus amigos foi muito importante para mim.

Uma coisa que acontece muito no meio da tatuagem é um profissional ver que outra pessoa tem talento e realmente incentivá-la a tatuar. Mesmo que haja concorrência, como em todos os setores comerciais, isto, em particular, é uma característica muito forte não só do universo da tatuagem, mas do universo artístico em si. E com você? Como aconteceu sua entrada para este meio?
Eu já trabalhava com arte há 12 anos, quando em 2002, na 6a Convenção Internacional de Tatuagem, cheguei com meus desenhos de baixo do braço, fruto de oito meses de trabalho. Lancei-me de cabeça a conhecer toda aquela gente e mostrar-lhes meus desenhos. Foi muito bom… estímulo e apoio de todos os lados. ”Você precisa tatuar!”, “você está perdendo tempo, tem que pegar logo numa máquina de tatuar, seus desenhos são ótimos!”, eles me diziam. O fato é que fui “fisgada”. Não parava de pensar no assunto e comecei a freqüentar os estúdios aqui de Santos. No Tattoo na Paz comprei minhas primeiras máquinas e os tatuadores Pablo Delic e Renato Medonho começaram a me ensinar, dando toques e dicas e respondendo as minhas perguntas.

Como têm sido suas participações nas convenções de tatuagem?
Muito boas, nas conversas recebo sugestões de temas para as próximas séries, revejo amigos, recebo o carinho e o incentivo de gente de todas as partes do país. É o momento onde através das reações das pessoas percebo o resultado de tanto esforço e trabalho.

Qual é a importância destes eventos na sua opinião?
A importância de manter os profissionais em contato, compartilhar informações, admirar a qualidade e o valor do trabalho que anda sendo feito, a compra e o acesso aos materiais e séries, é difícil resumir tudo. Lembro que em outubro deste ano, na hora em que seria anunciado o resultado dos concursos, senti a vibração e o entusiasmo de toda aquela gente, senti o quanto era bom estar ali com uma multidão de pessoas que compartilham comigo o amor pela tatuagem e pelo desenho, foi emocionante.

Como surgiu seu interesse pelos seres fantásticos e místicos?
Sempre fui “fissurada” em mitologia, contos de fadas e estórias fantásticas. Acho que sentir o lado mágico das coisas torna a vida mais interessante e o dia a dia mais saboroso. Sempre pesquisei estes temas, colecionando estórias e sonhos.

Hoje em dia, muito mais pessoas sabem o que são “hobbits”, “goblins”, “elfos” e outros seres fantásticos, que têm aparecido com freqüência no cinema, isso influencia de alguma forma na preferência das pessoas por tatuagens com esta temática?
Acho que nem tanto. O fascínio das pessoas pelo fantástico é algo que sempre existiu. Heróis, dragões, seres alados e mágicos nos atraem por serem o oposto do que encontramos na competição e na rotina do dia a dia nas cidades. As pessoas precisam sonhar e o papel do cinema e seus efeitos especiais é o mesmo dos antigos contadores de estórias, atiçar a imaginação humana.

O cinema, na sua opinião, tem influenciado as pessoas a se tatuarem?
Um pouco. O que está influenciando mesmo as pessoas a se tatuar é a quebra dos preconceitos antigos. A tatuagem deixou de ser algo mal visto e se tornou uma manifestação natural das personalidades e gostos. O ser humano sempre se tatuou ao longo da história, seja por vaidade, proteção ou ritual de passagem. Sem medo da reprovação da sociedade as pessoas se sentem livres para enfeitar seus corpos permanentemente.

Sua arte já abrangeu os universos do desenho, da pintura, da escultura e da tatuagem. Quais destas técnicas lhe proporcionam mais prazer? Porque?
Atualmente são as séries e a tatuagem. Nas séries acabo me surpreendendo e me divertindo com o que vai nascendo, as expressões, as cores… é como se uma parte nascesse de mim e outra eu “pescasse” daquele lugar misterioso de onde vem a inspiração dos artistas. Na tatuagem a arte adquire um brilho e uma força especiais sobre a pele, você sabe que vai ser para a vida inteira e o desenho se integra com a anatomia. Cada pessoa é um desafio, uma idéia nova de desenho, as coberturas de cicatrizes e tatuagens antigas me obrigam a criar desenhos sob medida, e o sorriso e a surpresa da pessoa ao ver a tattoo pronta… é demais!

Porque se decidiu pelo curso de Artes Plásticas?
Foi uma conseqüência natural do que sempre gostei de fazer. Desenho e pintura são minhas paixões desde pequena… observo o mundo real e imaginário e registro no papel a minha maneira. Aconselharam-me a fazer outra faculdade, mas não teve jeito, o que eu queria fazer mesmo era Artes Plásticas.

Quais são as maiores diferenças entre se fazer um desenho que tenha o papel ou a tela, como destino final e aquele que do papel, passará ainda para a pele, possivelmente de várias pessoas e através de vários artistas diferentes?
O desenho para tatuagem nasce pensando nas particularidades e limitações da técnica, por exemplo: não se devem tatuar desenhos muito detalhados e pequenos demais, assim os desenhos nas séries já se encontram no tamanho ideal, não se deve diminuí-los, pois a longo prazo ficaria um desenho “confuso” na pele. Vários destes pontos devem ser levados em conta na hora da criação, desde os esboços que nascem soltos no papel até a arte final que vemos nas séries existe um período de amadurecimento aonde o desenho vai sendo lapidado.

Como é a sensação de ver suas criações sendo marcas pessoais de tantas pessoas?
É muito boa, é como se todas estas pessoas tivessem algo em comum comigo, elas se identificaram com o que eu criei, o que foi importante para mim foi importante para elas também. É difícil explicar esta sensação de ligação com tantas pessoas que eu nem conheço, é definitivamente muito boa!

Você pensa nisto enquanto está desenhando?
Na verdade não, na hora eu só deixo nascer os desenhos, a razão fica de fundo só me lembrando do que funciona ou não em tatuagem. Quem comanda mesmo é o instinto, eu só paro de mexer no desenho quando sinto que ele esta vivo, adquiriu uma personalidade própria.

Como você lida com a pirataria que existe em nosso país?
Primeiro procuro o máximo de qualidade nas séries originais. As cópias coloridas eu tiro diretamente dos originais, feitos com nanquim e lápis de cor, saem explodindo em cores e detalhes, e o fundo é cor de pele, liso e perfeito. Somente a compra destas séries originais, diretamente, é que realmente autoriza o tatuador a trabalhar com os desenhos. Nas convenções converso com os tatuadores, tento mostrar-lhes que existe uma pessoa por trás dos desenhos que se esforçou em fazê-los com carinho. Vendo as séries pelo preço de uma tatuagem media, facilito o pagamento quando necessário e em cada folha das series existe o endereço do meu site para que eles possam fazer contato direto comigo. Cada vez mais tatuadores tem procurado a qualidade das séries originais, conscientizando-se da importância de valorizar o trabalho de quem cria os desenhos. São estes os meus anjos da guarda, os artistas que reconhecem o trabalho de outro artista. Este ano fiz um cadastro detalhado dos estúdios que compraram as series Jade e Ametista. As pessoas sempre me mandam e-mails perguntando quem tem meus desenhos na sua cidade e eu tenho lhes mandado o nome e endereços destes estúdios.

Como é seu trabalho com retratos?
Retrato pessoas há quinze anos, sempre gostei de desenhar rostos, é interessante ir além do primeiro olhar e realmente prestar atenção ao rosto das pessoas, imaginar o que se esconde atrás dos olhos, a história que moldou aqueles traços.

Qual é a diferença entre o público que você retrata e o público que você tatua?
Geralmente, o público que me procura pelos retratos em sua maioria, vem atrás de um presente diferente para alguém que ama. Já quem me procura pelas tatuagens me procura para manifestar algo especial na pele, um desenho diferente que parece ter nascido para estar lá, um ato de amor a si mesmo, no bom sentido.

Como é o desenho que você escolheu para ter em seu corpo e por que se decidiu por ele?
Em meu corpo tenho por enquanto, somente uma tatuagem, feita pelo Pablo, é uma borboleta em arabescos dourados na região lombar, para mim um símbolo de renascimento, de “sair do casulo”, vontade de voar.

Você acha que as origens da tatuagem, como sendo um ato ritualístico de passagem de fase, proteção, reconhecimento e outros, ainda estão, de alguma forma, presentes na escolha das pessoas?
Acho que sim, eu pessoalmente prefiro tatuar temas com significados positivos, acho que psicologicamente a tatuagem pode ser uma força de estímulo, até mesmo de proteção. Pode parecer maluquice, mas dá para resgatar das origens da tatuagem, um pouco do seu lado mágico, um marco de passagem, libertação.

O que você acha mais relevante na hora em que uma pessoa decide ter uma tatuagem?
Considero que na hora da pessoa escolher o desenho esqueça moda, medos e só escute o coração. Para escolher o tatuador, além das observações práticas e importantes de higiene e assepsia, deve levar em consideração a sua empatia com o tatuador, mais do que preço, o que conta é que a pessoa goste e se identifique com o traço do profissional, a paixão é a marca individual de cada artista. Tattoo é para sempre, uma parte de você, o mesmo desenho tatuado por dois artistas diferentes muda completamente. Escute os conselhos do tatuador quanto ao tamanho, local e as cores ideais para a sua pele. Se o estilo do trabalho do tatuador é o que você procura, confie nele e torne sua tatuagem especial.

Você tem um site na Internet. Como você vê a relação da tatuagem com está mídia daqui pra frente?
COBERTURA DE CICATRIZA tatuagem tem na Internet uma ferramenta importantíssima. Através dela o tatuador pode divulgar o seu trabalho, trocar informações com outros tatuadores, educar e informar seu público, comprar materiais e etc... É através do meu site que as pessoas conhecem e compram minhas séries, conhecem meu trabalho como tatuadora e podem conversar comigo.

Conte-nos um pouco sobre sua nova série de desenhos e seus planos para o futuro:
Este ano nasceram duas novas séries: Jade e Ametista. São 123 desenhos novos, frutos do meu encontro com as pessoas, minhas pesquisas, sonhos e fantasias. Desta vez incluí alguns desenhos de fadas, feitos para serem tatuados em tamanhos pequenos. São tartarugas, sapos, anjos, um Buda, feito especialmente para mulheres e muitos outros temas. Meus planos para o futuro? Continuar desenhando, tatuando, e o que mais a inspiração mandar.


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