
Agosto 2004 |
Estúdio: Zuba Tattoo
Studio
Cidade: São Paulo - SP |
Por: Amana
Rodrigues
A primeira tatuagem em seu corpo, como foi?
Eu estava fazendo 16 anos e queria muito tatuar
uma lua, minha mãe era completamente contra.
Então, eu falsifiquei a assinatura dela e
fiz . Conte-nos um pouco
da sua trajetória que culminou em sua carreira
como tatuadora:
Minha trajetória como artista, se podemos
(tatuadores) chamar-nos assim, começou ainda
pequena fazendo desenhos. Eu adorava desenhar...
Na adolescência, busquei me aperfeiçoar
nas técnicas de desenho fazendo cursos e
me dedicando a estudar. Pensava em seguir carreira
como artista plástica, mas como na família,
meu avô e meu irmão já eram
artistas plásticos e para mim, a arte sempre
foi algo que eu associava muito ao meu prazer pessoal,
escolhi como profissão acadêmica a
psicologia, pois é uma profissão que
tem muito a ver com uma Claudia mais altruísta
que sempre existiu em mim, dessa forma, pude continuar
fazendo meus desenhos e me dedicar também
a esta outra vertente do espírito humano
que é a psique.
Você, junto com a Zuba, abriu o
“Studio Zuba” há mais de dez
anos. Quais as principais diferenças você
percebe entre as décadas de 90 e a atual
em relação à tatuagem?
Quando abrimos o Studio Zuba em 1992, não
havia tantos tatuadores como atualmente, em que,
a cada esquina se vê uma portinha escrito
“tattoo e body piercing”. As pessoas
também eram mais preconceituosas e a tatuagem
ainda era um símbolo de transgressão.
Atualmente, acho que houve uma evolução
neste sentido. Vejo mães acompanharem suas
filhas para suas primeiras tattoos e acharem legal,
ou seja, não existe mais aquela velha associação
com a marginalidade, somente em grupos onde realmente
a ignorância e o pensamento retrógrado
imperam e como no Brasil isso não é
difícil, ainda estamos engatinhando para
a liberdade de expressão corporal plena,
como na Europa central, por exemplo. Com relação
aos desenhos, fazia-se muito tribal, hoje acho
que as pessoas voltaram a gostar de fazer desenhos
mais significativos, o que acho também
mais agradável. Não que eu não
goste dos tribais, mas acho que deve existir uma
proposta estética grande, para fazê-los.
O
Studio Zuba oferece também aos seus clientes,
outros serviços de modificações
corporais. Você também pratica outras
formas de body art?
Eu, Claudia, não. Gosto mesmo é
de tatuar, meu interesse é no desenho corporal.
As outras formas de modificação
passam por processos cirúrgicos que particularmente
não me agradam... Cortes, perfurações,
implantes...
Você já esteve na França,
Holanda e Inglaterra, conhecendo o trabalho de
outros profissionais da área. Que diferenças
sócio-culturais você encontrou entre
a tatuagem nos países que visitou e a tatuagem
no Brasil?
Nossa...Muitas. Culturalmente, podemos pegar a
Inglaterra como exemplo, lá, as pessoas
estão familiarizadas com todo o processo
evolutivo da tatuagem, técnica e artisticamente
, já estão engajados nesse processo
há mais de 100 anos, enquanto nós
estamos há 40, 50 anos, apenas. Isso sem
contar os dados pré históricos e
tal, mas esta é outra conversa. Acho que
estamos engatinhando no processo da body modification
e da arte corporal, enquanto eles já estão
andando. Mas estamos engatinhando sempre, não
é? Poderíamos pegar o exemplo de
nossos índios para falarmos de body modification,
mas nossa própria cultura nega a existência
dos mesmos, você vê um montão
de brasileiros fazendo desenhos de índios
americanos por exemplo, enquanto nós somos
o pais mais natural, xamânico e espiritual
do mundo. Ah! Tantas coisas... Mas basicamente
é isso.
Você acha que há falta de
comunicação entre os tatuadores
profissionais brasileiros?
Não sei, acho que não. Eu, particularmente,
sou mais reservada, mas pela minha índole
pessoal e não por não achar necessário
trocar. Como tatuadora, sinto que há um
certo machismo nesse meio.
Você
já participou de convenções
nacionais?
Não, ainda não.
Qual é a importância das
convenções de tatuagem na sua opinião?
Trocar informações e mostrar o trabalho.
Você já sofreu algum preconceito
por ser tatuada ou tatuadora?
Por ser tatuadora, já.
Profissão: Tatuadora. O que isto
representa para você?
Representa uma escolha pessoal que me trouxe e
me traz muita felicidade. Sinto-me realizada enquanto
profissional e, depois de ter bancado muita gente
e ter ouvido muita merda por ai, acho que posso
dizer com orgulho que sou tatuadora sim e que
isso não atrapalha em nada nas minhas outras
escolhas sejam elas profissionais ou pessoais.
Digo tudo isso por que aqui no Brasil, existe
ainda muito preconceito e nestes 12 anos eu ouvi
realmente muita bobagem, como por exemplo, que
fazer tatuagem não é profissão
e que qualquer um pode fazer...
O que você pensa a respeito dos
sindicatos, associações e clubes
de tatuadores, que vêm ganhando mais adeptos
a cada dia?
Para mim, o sindicato não serviu para muita
coisa. Mas, teoricamente, deveria funcionar para
que a profissão “tatuador”
fosse mais bem vista socialmente. É preciso
desvincular a tatuagem do atributo marginal, por
exemplo.
Você tem preferência entre
estilos de tatuagens?
Gosto de símbolos.
Há
algum motivo específico?
Acho que eles representam além de uma marca,
uma crença em algo além do puramente
visual, gosto dessa conotação para
a tatuagem, pois para mim, o momento da tatuagem,
a escolha de determinado desenho, o local tem
muito a ver com o histórico de vida da
pessoa, do seu movimento interno de autoconhecimento,
que acaba culminado no “mostrar” a
todo mundo, um pouco do que ela é.
Você se formou em psicologia. Como
associa esta formação à sua
profissão de tatuadora?
Eu me formei e atuo como psicóloga também.
Acho que essa formação me permite
ser mais perceptiva e paciente com os clientes.
Às vezes, para se chegar ao “mostrar”
(de que eu falava na minha resposta sobre os “símbolos”),
é preciso um tanto de conversa, paciência
e troca para o cliente se sentir seguro de sua
escolha, já que é uma escolha definitiva
em sua vida.
Qual é o perfil de seus clientes,
geralmente?
Não existe um perfil definido. Muitas pessoas
fazem tatuagem e cada uma tem motivos diversos
para fazê-la. Acho que estes 12 anos de
vivência como tatuadora aqui no studio zuba,
me mostraram e me permitem dizer que “todas”
as pessoas existentes são passíveis
de ter uma tatuagem um dia.
Quais são os pontos positivos
e os negativos dessa superexploração
da mídia sobre a tatuagem hoje em dia?
Por um lado, existe a vontade de colocar a tatuagem
como algo ainda marginalizado e que dá
ibope, por outro, serve para divulgar e mostrar
o que ela é realmente. Informação
é sempre bem vinda, desde que não
se dê margem a distorções.
É preciso muito cuidado com a escolha dos
programas e do como será exposto o tema
da tatuagem.
O
que pode ser melhorado nas revistas de tatuagem
nacionais, na sua opinião?
Eu acho que elas deveriam ser menos seletivas
e dar espaço, realmente, para os tatuadores
se expressarem.
O que falta, na sua opinião para
que a tatuagem seja reconhecida, finalmente, como
uma profissão como qualquer outra?
Falta informação cultural
suficiente para que as pessoas possam evoluir
enquanto seres humanos, como qualquer outro setor
marginalizado da sociedade. Isso é puro
preconceito. A maioria das pessoas não
tem conceitos realmente formados sobre as questões
que as incomodam. Falta educação,
cultura e vontade de crescer.
Tem planos para o futuro?
Pretendo continuar fazendo tattoos por
muito tempo ainda, quando eu ficar velhinha e
não enxergar mais tão bem, de repente,
eu passe a escrever livros a respeito, quem sabe...
O
que você diria às novas tatuadoras
e aspirantes à profissão?
Eu diria que, se é um sonho pessoal a ser
alcançado, que elas realmente se dediquem
e corram atrás do que acreditam, mas se
for somente com o pensamento: “vou ganhar
grana com isso”,que desistam. Primeiro porque
não dá tanta grana assim e segundo
porque a gente tem que fazer o que ama. Estudem
e pratiquem bastante, a prática é
essencial, e sempre escutem seus clientes com
carinho, pois eles sabem o que querem.
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