
Maio 2004 |
Estúdio:
Dallier
Tattoo
Cidade: Rio de Janeiro - RJ |
Por: Amana
Rodrigues
Aos 31 anos, o tatuador Alexandre
Dallier comemora sua arte com muito trabalho, dedicação
e consciência social.
Conte-nos
um pouco da sua história e de seu contato
com a arte:
O meu primeiro
contato foi mesmo na escola. Atividades com arte,
expressões artísticas em lixa, cartolina,
cola, diversas técnicas. Esse incentivo e
oportunidade acrescentaram muito no que sou hoje.
Minha principal vontade era ser piloto de caça,
eu adorava a velocidade e a liberdade quando apenas
era um menino. No entanto, persistentemente, a arte
e a vontade de desenhar me conduziram, como se isso
“estivesse escrito”. Ainda novo, eu
sentia uma admiração inexplicável
ao ver pinturas clássicas e renascentistas.
Sentia que aquilo queria me dizer alguma coisa,
então eu ficava intrigado. Comecei a estudar
e a ler biografias de artistas da Renascença
e, cada vez mais, a me identificar com eles, com
a técnica, a busca da perfeição,
do belo, do real. No começo, em 1995, comecei
a aprender a lidar com lápis grafite, lápis
de cor e pastel seco. Como só conseguia trabalhar
com essas técnicas tentei, a parti daí,
a confeccionar os meus trabalhos tendo como referência
as pinturas que tanto me davam inspiração.
O reconhecimento veio me preparar para o que vinha
pela frente. Logo me conduziram para pintura a óleo,
no próprio Centro de Artes onde eu dava aula.
Foi a realização. Eu achava que havia
alcançado o principal objetivo da minha vida,
que é trabalhar com arte e dar aula, porque
ensinamos melhor aquilo que precisamos saber. Com
isso, eu aprendia mais do que os próprios
alunos.
Você tem participado de vários
salões de arte e exposições.
Quais foram suas premiações mais
importantes?
Em 1997, ganhei medalha de bronze no salão
de artes Forte Duque de Caxias. Também
neste ano expus pelo 6º salão internacional
de desenho de imprensa em Porto Alegre, na categoria
Caricatura e fui convidado a participar de um
salão em Dallas, EUA, juntamente com artistas
que desenvolvem pinturas a lápis de cor.
Em 1998, novamente expus no 7º salão
internacional de desenho de imprensa em Porto
Alegre, ficando em 2º lugar na categoria
Caricatura. Em 2000, fui convidado pela galeria
de arte Marly Faro a fazer uma pintura de uma
refinaria de petróleo, em comemoração
à criação de uma galeria
de arte permanente na Petrobrás, junto
com os principais artistas do Brasil. Em 2000,
participei da exposição coletiva
e comemorativa do ‘’Brasil. 500 anos
de descobrimento’’ realizado na Real
Sociedade Club Ginástico Português.
E, em 2003, ganhei o prêmio de melhor série
de desenhos em preto e branco na 3º Convenção
de Tattoo do Rio de Janeiro.
Como a tatuagem surgiu em sua vida?
É engraçado. Realmente não
somos nós quem escolhemos as coisas na
vida, mas são as coisas que nos escolhem.
A tatuagem surgiu de uma forma inusitada. Desde
quando desenhava na rua aonde morava, na Tijuca,
eu sempre ouvia que poderia fazer desenhos de
tattoo, mas nunca levei muito a sério,
pois o meu objetivo era fazer ilustrações
para capas de cd, revistas, pranchas de surf,
skate. Então comecei, em 1989, a procurar
cursos de desenhos no Senac para desenvolver uma
técnica e mais conhecimento.
Na época, isso não dava dinheiro,
mas mesmo assim eu perseverava. Trabalhei vendendo
jóias na rua, como vendedor de loja, educador
social. Os bicos incrementavam a renda familiar
e era apertado o tempo para me dedicar à
arte. Nos tempos vagos, até mesmo no trabalho,
quando dava aula de desenho, comecei a fazer quadros.
Por incentivo de amigos, comecei a comprar revistas
de tattoo e comecei a perceber o quanto eu poderia
criar sem limites os desenhos e isso dava mais
asas à minha imaginação.
Então, peguei a minha pasta de desenhos
artísticos e fui para uma praça
expor os meus trabalhos na rua, para quem passasse.
Ao meu encontro veio um homem perguntando se eu
era artista e respondi dizendo que apenas fazia
o que amava. Ainda com a pasta fechada mostrei-lhe
os trabalhos. Sem demora ele perguntou quanto
eu cobraria para realizar um quadro de sua esposa
e, de acordo com o valor, fechamos a pintura.
Com a entrega do trabalho ocorreu o assunto de
tattoo, em ele me perguntou porque nunca havia
me interessado em fazer tatuagens. Comecei a me
interessar e a partir daí, com a ajuda
do meu irmão, choveu cobaia para eu fazer
a primeira tattoo. Adaptei-me muito rápido
à maneira de confeccionar as tattoos e
as técnicas, de repente, surgiram na minha
frente. Todos os anos que passei, até hoje,
estudando arte acrescentaram naquele momento.
Passei então a reformular o meu pensamento,
eu queria era tatuar. Pra mim, ter realizado desenhos
com diversas técnicas de pintura me fez
apenas adequar a mais uma nova superfície,
a pele. Isso ocorreu a pouco menos de dois anos
e meio.
Depois de alguns anos trabalhando em
uma agência publicitária, você
acha que a publicidade e a propaganda tem influenciado
a tatuagem?
Claro! Todo e qualquer veículo de propaganda
que esclarece e divulga é positivo para
a imagem da tattoo. Com isso, as pessoas participam
mais, vendo o que está acontecendo no mercado
e constantemente informada. Desfaz alguns preconceitos.
Inclusive, a mídia tem uma forte influência
quando vemos mais pessoas tatuadas na tv, no teatro,
no cinema, nas novelas, nos programas de esporte,
enfim, isso socializa a tattoo.
Você acha que dessa influência
pode surgir uma nova geração de
adeptos à tatuagem?
Com certeza ajuda muito. Os meios de comunicação,
ao interagirem com a arte, contribuem para que
seja desfeito um conceito ainda presente em nossa
sociedade conservadora de que a tattoo é
uma coisa prejudicial a imagem de alguém.
Como haverá cada vez mais e mais pessoas
tatuadas, as novas gerações se influenciarão
por esse método de ornamentar o corpo,
de expressão e afirmação.
Como
surgiu a idéia de ser um voluntário
num projeto social?
Todo pré-adolescente tenta mudar o Mundo
a sua maneira. Como todo pré-adolescente,
eu ficava indignado com os governos inertes, com
a corrupção, com a violência.
Refleti, e vi que poderia mudar algo. Então,
porque não começar transformando
o que há a minha volta? A luz acendeu e
iluminou as minhas expectativas. Olhei pra mim
mesmo e percebi que eu tinha como ensinar a desenhar.
Nessa época eu estava em um Centro de Artes
trabalhando, ou melhor, sobrevivendo. Pensei na
minha namorada, na época, que morava em
morro perto de onde dava aula. Me informei na
Associação de Moradores da comunidade
e em parceria com eles, com a devida autorização
comecei a lecionar para a criançada em
um ginásio no próprio morro. Este
foi o começo da minha missão.
Como era seu trabalho com a crianças?
Animador. Formávamos uma equipe de educadores
sociais, assistentes sociais, psicólogos
e, em parceria com uma ONG, desenvolvíamos
atividades lúdicas, artísticas e
de teatro com as crianças. A comunidade
nos recebia sempre com um belo sorriso, que para
nós era um agradecimento sem palavras.
E a criançada fazia tudo acontecer.
É fácil persuadir as crianças
a trabalhar com arte?
Persuadir não é necessário.
As crianças, os adolescentes têm
uma qualidade que é a curiosidade, o primeiro
passo para um descobrimento. Quantas vezes vinham
descalços, sem camisa, pegavam sem jeito
os lápis, o papel e surgia dali algo maravilhoso.
Tem um pensamento de Pitágoras que diz
exatamente isso: “Eduquem as crianças
e não será necessário castigar
os homens.” Mudança se faz desde
cedo, na escola. Eu faço a minha parte.
Qual era a reação dessas
crianças ao saberem que você trabalha
com tatuagens?
É melhor nem espalhar, porque, quando eu
era convidado para participar de algum projeto,
a criançada já vinha correndo e
gritando: “Tio, tio! Eu primeiro!”.
Era um sufoco ir embora. Eu tinha que ser resgatado
do meio da galerinha. Era muito bom! Quando se
trabalha com crianças e adolescentes, você
passa ser uma referência para eles. Independente
de ter tatuagens, se vestir de uma maneira engraçada,
um corte de cabelo, tudo passa a ser um espelho
para os jovens, como se fossem nossos filhos.
É uma responsabilidade muito grande, pois
se cria um hábito, um jeito, você
passa a ser como um parente mesmo, literalmente,
quando dá carinho e atenção
para eles.
Você pôde perceber como a
tatuagem é vista hoje por estas crianças
e adolescentes carentes?
A tattoo está associada à auto afirmação,
à iniciativa, ao “ser maduro”
e diferente dos outros. Para aqueles que não
podem pagar um trabalho de tatuagem, ter uma significa
estar na mesma classe social dos “ricos”.
Exemplo disso é quando uma artista de novela,
um jogador de futebol, entre outros exemplos mudam
a maneira dessas pessoas de se vestir, de um corte
de cabelo e por aí vai. Isso, na cabeça
deles, os incluem em um contexto social.
Como
é o contraste entre dar aulas de arte para
crianças carentes em situação
de risco e para adultos de classe média,
numa faculdade?
Certas situações são engraçadas.
Uma vez eu estava com um colega na sala dos professores
e, de repente, ele me mostrou um laptop. Ele me
disse: “Pô, tive que alugar esse computador.
Tenho que impressionar os alunos, você é
o que você tem.”E realmente para as
alunas foi positivo o instrumento de trabalho.
O laptop impressionou e isso deu credibilidade
para ele, acreditem. Um meio é completamente
diferente do outro. É a desigualdade. Mas
para lidar com isso só precisei ser eu
mesmo. O meu trabalho falava por mim.
Como é a visão de seus
alunos de faculdade sobre a tatuagem e sua profissão?
Natural. Alguns são a favor, outros contra.
Como foi unir estes três trabalhos?
Foi difícil. Olhemos para o lado prático:
Tive que escolher aquilo que me dava retorno financeiro.
As minhas contas não são facultativas
como o trabalho voluntário. As aulas de
desenho eram gratificantes sim, mas o que realmente
lutei para fazer na minha vida está agora
em minha frente. A arte, a tattoo, a oportunidade
de dar essa entrevista, são frutos do trabalho
que venho fazendo.
Qual das suas profissões lhe
traz mais prazer?
Desenhar e tatuar. Realizar, inovar, criar, descobrir,
fazer é algo que impulsiona a minha vontade
de aprender.
Qual é o seu estilo favorito
de tatuagem?
O Realismo.
Quais foram os estúdios de tatuagem
em que trabalhou?
Kiko Tattoo (quem me batizou), Banzai Tattoo(uma
grande escola), Broder Tattoo, Paulão Tattoo
e House of Pain.
Como
foi essa experiência de conviver com tantos
profissionais e estilos diferentes?
Enriquecedor. Estar, compartilhar, conviver é
simplesmente muito bom. Dentro de um studio de
tatuagem, aprende-se até por “osmose”.
Cada um tem uma particularidade e isso faz a pessoa
amadurecer artisticamente e como profissional.
E trabalhar num estúdio próprio,
depois de passar por tantos estúdios, como
está sendo para você?
É minha oportunidade de aplicar tudo o
que foi absorvido, com mais responsabilidade e
deveres. Tenho a liberdade de me dedicar mais
a uma tattoo, conduzir o meu estilo, atender com
mais calma os meus clientes. Ainda hoje estou
me aprimorando.
Você acha que um bom tatuador deve
ser autodidata ou, na sua opinião, as técnicas,
tanto de desenho quanto de tatuagem podem ser
aprendidas em cursos, sem problemas?
Fazendo cursos ou não, vai depender muito
de quem está interessado em aprender. Cabe
a quem tem este interesse procurar, buscar e absorver.
Estudar história da arte, desenhar, criar,
inovar. A curiosidade, na minha opinião,
torna um tatuador autoditada. Esta curiosidade
aliada a um acompanhamento de um profissional,
pode gerar um grande artista.
Levando em consideração alguns fatores
como reconhecimento, desvalorização
e preconceitos, como você acha que a tatuagem
é vista hoje, artisticamente falando.
Mudou muito. Desde que a mídia incorporou
essa arte, há cada vez mais informação
ao público e eventos promovendo a tattoo.
Isso só faz mais sociável e aceitável
a sua imagem. Cada vez mais novos profissionais
ingressarão no mercado e, conseqüentemente,
novas perspectivas, estilos, conceitos surgirão
por aí.
Qual foi seu melhor momento como artista?
Esse momento atual, posso dizer que está
sendo muito bom. Tenho percebido o quanto o meu
trabalho está sendo bem visto, evoluindo.
Mas eu quero mais. Para isso a humildade, o respeito,
a lealdade, a determinação e a perseverança,
serão os ingredientes para estar caminhando
na direção certa.
Como você acha que será
o conceito social sobre a tatuagem daqui uns dez
anos?
Todas as crianças que conheço já
se imaginam tatuadas. A conclusão óbvia
é de que terá mais gente tatuada,
mais profissionais, uma variedade maior de materiais,
novos estilos, enfim, tudo leva a dar continuidade
à sina da tattoo, a prosperidade.
O
que você aconselharia a um aspirante à
profissão de tatuador?
Eu diria: Ingresse em um studio. Faça parte
dele. Absorva tudo o que estiver ao seu alcance,
pergunte tudo como uma criança, tenha curiosidade
em aprender e dê o devido valor ao seu trabalho.
A tatuagem mudou em alguma coisa sua
visão de arte?
Digamos que o que mudou foi a superfície
onde estava acostumado trabalhar. As técnicas
de tattoo enriqueceram ainda mais o meu estilo
e minha maneira de ver a arte. Continuo aprendendo
e realizando cada vez mais o que mais admiro na
arte, no realismo e passar essa técnica
para a pele é sensacional. A minha “visão”
vai até onde eu consigo ver o cliente indo
embora, pois ele leva a obra. Segundo o budismo,
tudo o que é invisível é
eterno. Eu tento pensar assim. O que a gente leva
dessa vida é a vida que a gente leva.
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