Brasil, 20 de agosto de 2008
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  Maio 2004
Estúdio: Dallier Tattoo
Cidade: Rio de Janeiro - RJ 

Por: Amana Rodrigues

Aos 31 anos, o tatuador Alexandre Dallier comemora sua arte com muito trabalho, dedicação e consciência social.
 
Conte-nos um pouco da sua história e de seu contato com a arte:
O meu primeiro contato foi mesmo na escola. Atividades com arte, expressões artísticas em lixa, cartolina, cola, diversas técnicas. Esse incentivo e oportunidade acrescentaram muito no que sou hoje. Minha principal vontade era ser piloto de caça, eu adorava a velocidade e a liberdade quando apenas era um menino. No entanto, persistentemente, a arte e a vontade de desenhar me conduziram, como se isso “estivesse escrito”. Ainda novo, eu sentia uma admiração inexplicável ao ver pinturas clássicas e renascentistas. Sentia que aquilo queria me dizer alguma coisa, então eu ficava intrigado. Comecei a estudar e a ler biografias de artistas da Renascença e, cada vez mais, a me identificar com eles, com a técnica, a busca da perfeição, do belo, do real. No começo, em 1995, comecei a aprender a lidar com lápis grafite, lápis de cor e pastel seco. Como só conseguia trabalhar com essas técnicas tentei, a parti daí, a confeccionar os meus trabalhos tendo como referência as pinturas que tanto me davam inspiração. O reconhecimento veio me preparar para o que vinha pela frente. Logo me conduziram para pintura a óleo, no próprio Centro de Artes onde eu dava aula. Foi a realização. Eu achava que havia alcançado o principal objetivo da minha vida, que é trabalhar com arte e dar aula, porque ensinamos melhor aquilo que precisamos saber. Com isso, eu aprendia mais do que os próprios alunos.

Você tem participado de vários salões de arte e exposições. Quais foram suas premiações mais importantes?
Em 1997, ganhei medalha de bronze no salão de artes Forte Duque de Caxias. Também neste ano expus pelo 6º salão internacional de desenho de imprensa em Porto Alegre, na categoria Caricatura e fui convidado a participar de um salão em Dallas, EUA, juntamente com artistas que desenvolvem pinturas a lápis de cor. Em 1998, novamente expus no 7º salão internacional de desenho de imprensa em Porto Alegre, ficando em 2º lugar na categoria Caricatura. Em 2000, fui convidado pela galeria de arte Marly Faro a fazer uma pintura de uma refinaria de petróleo, em comemoração à criação de uma galeria de arte permanente na Petrobrás, junto com os principais artistas do Brasil. Em 2000, participei da exposição coletiva e comemorativa do ‘’Brasil. 500 anos de descobrimento’’ realizado na Real Sociedade Club Ginástico Português. E, em 2003, ganhei o prêmio de melhor série de desenhos em preto e branco na 3º Convenção de Tattoo do Rio de Janeiro.

Como a tatuagem surgiu em sua vida?
É engraçado. Realmente não somos nós quem escolhemos as coisas na vida, mas são as coisas que nos escolhem. A tatuagem surgiu de uma forma inusitada. Desde quando desenhava na rua aonde morava, na Tijuca, eu sempre ouvia que poderia fazer desenhos de tattoo, mas nunca levei muito a sério, pois o meu objetivo era fazer ilustrações para capas de cd, revistas, pranchas de surf, skate. Então comecei, em 1989, a procurar cursos de desenhos no Senac para desenvolver uma técnica e mais conhecimento. Na época, isso não dava dinheiro, mas mesmo assim eu perseverava. Trabalhei vendendo jóias na rua, como vendedor de loja, educador social. Os bicos incrementavam a renda familiar e era apertado o tempo para me dedicar à arte. Nos tempos vagos, até mesmo no trabalho, quando dava aula de desenho, comecei a fazer quadros. Por incentivo de amigos, comecei a comprar revistas de tattoo e comecei a perceber o quanto eu poderia criar sem limites os desenhos e isso dava mais asas à minha imaginação. Então, peguei a minha pasta de desenhos artísticos e fui para uma praça expor os meus trabalhos na rua, para quem passasse. Ao meu encontro veio um homem perguntando se eu era artista e respondi dizendo que apenas fazia o que amava. Ainda com a pasta fechada mostrei-lhe os trabalhos. Sem demora ele perguntou quanto eu cobraria para realizar um quadro de sua esposa e, de acordo com o valor, fechamos a pintura. Com a entrega do trabalho ocorreu o assunto de tattoo, em ele me perguntou porque nunca havia me interessado em fazer tatuagens. Comecei a me interessar e a partir daí, com a ajuda do meu irmão, choveu cobaia para eu fazer a primeira tattoo. Adaptei-me muito rápido à maneira de confeccionar as tattoos e as técnicas, de repente, surgiram na minha frente. Todos os anos que passei, até hoje, estudando arte acrescentaram naquele momento. Passei então a reformular o meu pensamento, eu queria era tatuar. Pra mim, ter realizado desenhos com diversas técnicas de pintura me fez apenas adequar a mais uma nova superfície, a pele. Isso ocorreu a pouco menos de dois anos e meio.

Depois de alguns anos trabalhando em uma agência publicitária, você acha que a publicidade e a propaganda tem influenciado a tatuagem?
Claro! Todo e qualquer veículo de propaganda que esclarece e divulga é positivo para a imagem da tattoo. Com isso, as pessoas participam mais, vendo o que está acontecendo no mercado e constantemente informada. Desfaz alguns preconceitos. Inclusive, a mídia tem uma forte influência quando vemos mais pessoas tatuadas na tv, no teatro, no cinema, nas novelas, nos programas de esporte, enfim, isso socializa a tattoo.

Você acha que dessa influência pode surgir uma nova geração de adeptos à tatuagem?
Com certeza ajuda muito. Os meios de comunicação, ao interagirem com a arte, contribuem para que seja desfeito um conceito ainda presente em nossa sociedade conservadora de que a tattoo é uma coisa prejudicial a imagem de alguém. Como haverá cada vez mais e mais pessoas tatuadas, as novas gerações se influenciarão por esse método de ornamentar o corpo, de expressão e afirmação.

Como surgiu a idéia de ser um voluntário num projeto social?
Todo pré-adolescente tenta mudar o Mundo a sua maneira. Como todo pré-adolescente, eu ficava indignado com os governos inertes, com a corrupção, com a violência. Refleti, e vi que poderia mudar algo. Então, porque não começar transformando o que há a minha volta? A luz acendeu e iluminou as minhas expectativas. Olhei pra mim mesmo e percebi que eu tinha como ensinar a desenhar. Nessa época eu estava em um Centro de Artes trabalhando, ou melhor, sobrevivendo. Pensei na minha namorada, na época, que morava em morro perto de onde dava aula. Me informei na Associação de Moradores da comunidade e em parceria com eles, com a devida autorização comecei a lecionar para a criançada em um ginásio no próprio morro. Este foi o começo da minha missão.

Como era seu trabalho com a crianças?
Animador. Formávamos uma equipe de educadores sociais, assistentes sociais, psicólogos e, em parceria com uma ONG, desenvolvíamos atividades lúdicas, artísticas e de teatro com as crianças. A comunidade nos recebia sempre com um belo sorriso, que para nós era um agradecimento sem palavras. E a criançada fazia tudo acontecer.

É fácil persuadir as crianças a trabalhar com arte?
Persuadir não é necessário. As crianças, os adolescentes têm uma qualidade que é a curiosidade, o primeiro passo para um descobrimento. Quantas vezes vinham descalços, sem camisa, pegavam sem jeito os lápis, o papel e surgia dali algo maravilhoso. Tem um pensamento de Pitágoras que diz exatamente isso: “Eduquem as crianças e não será necessário castigar os homens.” Mudança se faz desde cedo, na escola. Eu faço a minha parte.

Qual era a reação dessas crianças ao saberem que você trabalha com tatuagens?
É melhor nem espalhar, porque, quando eu era convidado para participar de algum projeto, a criançada já vinha correndo e gritando: “Tio, tio! Eu primeiro!”. Era um sufoco ir embora. Eu tinha que ser resgatado do meio da galerinha. Era muito bom! Quando se trabalha com crianças e adolescentes, você passa ser uma referência para eles. Independente de ter tatuagens, se vestir de uma maneira engraçada, um corte de cabelo, tudo passa a ser um espelho para os jovens, como se fossem nossos filhos. É uma responsabilidade muito grande, pois se cria um hábito, um jeito, você passa a ser como um parente mesmo, literalmente, quando dá carinho e atenção para eles.

Você pôde perceber como a tatuagem é vista hoje por estas crianças e adolescentes carentes?
A tattoo está associada à auto afirmação, à iniciativa, ao “ser maduro” e diferente dos outros. Para aqueles que não podem pagar um trabalho de tatuagem, ter uma significa estar na mesma classe social dos “ricos”. Exemplo disso é quando uma artista de novela, um jogador de futebol, entre outros exemplos mudam a maneira dessas pessoas de se vestir, de um corte de cabelo e por aí vai. Isso, na cabeça deles, os incluem em um contexto social.

Como é o contraste entre dar aulas de arte para crianças carentes em situação de risco e para adultos de classe média, numa faculdade?
Certas situações são engraçadas. Uma vez eu estava com um colega na sala dos professores e, de repente, ele me mostrou um laptop. Ele me disse: “Pô, tive que alugar esse computador. Tenho que impressionar os alunos, você é o que você tem.”E realmente para as alunas foi positivo o instrumento de trabalho. O laptop impressionou e isso deu credibilidade para ele, acreditem. Um meio é completamente diferente do outro. É a desigualdade. Mas para lidar com isso só precisei ser eu mesmo. O meu trabalho falava por mim.

Como é a visão de seus alunos de faculdade sobre a tatuagem e sua profissão?
Natural. Alguns são a favor, outros contra.

Como foi unir estes três trabalhos?
Foi difícil. Olhemos para o lado prático: Tive que escolher aquilo que me dava retorno financeiro. As minhas contas não são facultativas como o trabalho voluntário. As aulas de desenho eram gratificantes sim, mas o que realmente lutei para fazer na minha vida está agora em minha frente. A arte, a tattoo, a oportunidade de dar essa entrevista, são frutos do trabalho que venho fazendo.

Qual das suas profissões lhe traz mais prazer?
Desenhar e tatuar. Realizar, inovar, criar, descobrir, fazer é algo que impulsiona a minha vontade de aprender.

Qual é o seu estilo favorito de tatuagem?
O Realismo.

Quais foram os estúdios de tatuagem em que trabalhou?
Kiko Tattoo (quem me batizou), Banzai Tattoo(uma grande escola), Broder Tattoo, Paulão Tattoo e House of Pain.

Como foi essa experiência de conviver com tantos profissionais e estilos diferentes?
Enriquecedor. Estar, compartilhar, conviver é simplesmente muito bom. Dentro de um studio de tatuagem, aprende-se até por “osmose”. Cada um tem uma particularidade e isso faz a pessoa amadurecer artisticamente e como profissional.

E trabalhar num estúdio próprio, depois de passar por tantos estúdios, como está sendo para você?
É minha oportunidade de aplicar tudo o que foi absorvido, com mais responsabilidade e deveres. Tenho a liberdade de me dedicar mais a uma tattoo, conduzir o meu estilo, atender com mais calma os meus clientes. Ainda hoje estou me aprimorando.

Você acha que um bom tatuador deve ser autodidata ou, na sua opinião, as técnicas, tanto de desenho quanto de tatuagem podem ser aprendidas em cursos, sem problemas?
Fazendo cursos ou não, vai depender muito de quem está interessado em aprender. Cabe a quem tem este interesse procurar, buscar e absorver. Estudar história da arte, desenhar, criar, inovar. A curiosidade, na minha opinião, torna um tatuador autoditada. Esta curiosidade aliada a um acompanhamento de um profissional, pode gerar um grande artista.
Levando em consideração alguns fatores como reconhecimento, desvalorização e preconceitos, como você acha que a tatuagem é vista hoje, artisticamente falando.
Mudou muito. Desde que a mídia incorporou essa arte, há cada vez mais informação ao público e eventos promovendo a tattoo. Isso só faz mais sociável e aceitável a sua imagem. Cada vez mais novos profissionais ingressarão no mercado e, conseqüentemente, novas perspectivas, estilos, conceitos surgirão por aí.

Qual foi seu melhor momento como artista?
Esse momento atual, posso dizer que está sendo muito bom. Tenho percebido o quanto o meu trabalho está sendo bem visto, evoluindo. Mas eu quero mais. Para isso a humildade, o respeito, a lealdade, a determinação e a perseverança, serão os ingredientes para estar caminhando na direção certa.

Como você acha que será o conceito social sobre a tatuagem daqui uns dez anos?
Todas as crianças que conheço já se imaginam tatuadas. A conclusão óbvia é de que terá mais gente tatuada, mais profissionais, uma variedade maior de materiais, novos estilos, enfim, tudo leva a dar continuidade à sina da tattoo, a prosperidade.

O que você aconselharia a um aspirante à profissão de tatuador?
Eu diria: Ingresse em um studio. Faça parte dele. Absorva tudo o que estiver ao seu alcance, pergunte tudo como uma criança, tenha curiosidade em aprender e dê o devido valor ao seu trabalho.

A tatuagem mudou em alguma coisa sua visão de arte?
Digamos que o que mudou foi a superfície onde estava acostumado trabalhar. As técnicas de tattoo enriqueceram ainda mais o meu estilo e minha maneira de ver a arte. Continuo aprendendo e realizando cada vez mais o que mais admiro na arte, no realismo e passar essa técnica para a pele é sensacional. A minha “visão” vai até onde eu consigo ver o cliente indo embora, pois ele leva a obra. Segundo o budismo, tudo o que é invisível é eterno. Eu tento pensar assim. O que a gente leva dessa vida é a vida que a gente leva.


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