
Março 2004 |
Estúdio:
Lucky Tattoo shop
Cidade: Niterói - RJ |
Por: Thiago Monteiro Bittencourt
Desde
quando você exerce a profissão de tatuador?
Exerço a profissão de tatuador desde
1993, portanto, há 11 anos. Foi nesse ano
que eu e Pepeu Tattoo abrimos a Skin Art House e,
então, passei a viver somente da tatuagem,
mas o meu primeiro contato com a arte foi em 1988.
O que o levou a se interessar por esta
arte?
Meu interesse pela tatuagem aconteceu meio por
acaso, eu tinha um amigo no bairro onde cresci
que havia passado um tempo no exterior e voltou
a morar lá. Ele possuía várias
tatuagens, umas feitas no método manual
e outras com máquina de motorzinho, que
era a sensação naquela época.
Vi suas tattoos, as achei iradas e, para minha
surpresa, ele me disse que seu irmão mais
velho era quem o tatuava e me convidou a ir à
sua casa alguns dias depois, quando ele ia fazer
uma nova tattoo. Nessa época eu já
desenhava um pouco e quando vi como eram feitas
as tatuagens, pensei, “acho que eu também
posso fazer isso”, e algum tempo depois
eu mesmo fiz uma máquina de motorzinho
e comecei a tatuar alguns amigos.
Quais dificuldades você enfrentou
no começo de sua vida como tatuador?
A maior dificuldade que tive no começo
foi conseguir material com boa qualidade, já
que, na época, as importações
eram muito difíceis e não havia
quase ninguém vendendo material bom, e,
quem tinha, vendia com preço muito alto.
Outra dificuldade foi o acesso às técnicas,
já que a maioria dos tatuadores não
via com bons olhos outras pessoas começando
na arte.
Você se recorda qual foi a primeira
tatuagem que viu em sua vida?
Como disse as primeiras tattoos que vi de perto
foram desse amigo do bairro. Ele tinha várias
tattoos, a maioria consideradas grandes para a
época.
E o primeiro trabalho realizado, gostou
do resultado?
A primeira tattoo foi em um amigo, um desenho
simples: flores tradicionais. O resultado foi
razoável dentro das condições
em que foi feita, já que, no começo,
tatuava com máquina de motorzinho, agulhas
e tintas inadequadas para tattoo.
O
que seus familiares e amigos disseram ou pensaram
sobre você quando decidiu seguir esta arte?
A família falou o de sempre, que não
era uma profissão, que era perigoso, que
não dava futuro entre outras coisas. Os
amigos, esses sim, queriam ser tatuados e conhecer
a arte. A cada revista de tattoo importada que
comprava eles olhavam e achavam novos desenhos
para fazer, já que nessa época só
tinha meus desenhos e revistas e não conhecia
outros tatuadores com os quais pudesse conseguir
novos desenhos.
Exerce ou já exerceu alguma outra
arte além de desenhar e tatuar?
Eu gosto de muitos tipos de arte, e, assim como
na tattoo sou autodidata, em outras artes também.
Já fiz esculturas em madeira e durepoxi,
artesanato em couro, vime, bambu e junco. Mas
o que mais me identifico mesmo é com desenhos
e pinturas sobre temas relacionados à tattoo.
Atualmente tenho pintado alguns quadros a óleo
e procuro sempre estar criando algumas séries
de desenhos para tattoo.
Em quais estúdios de tatuagens
você já trabalhou?
1993 - Skin Art House - Duque de Caxias - Hudson
,Pepeu e Sujo
1994 - Banzai Tattoo House - RJ - Marcos Davies,
Wagner Gorni e Hudson
1995 - Hélio Tattoo – RJ - Hélio
e Hudson
1996 - Tattoo House – RJ - Edu e Hudson
1997 até 2000 - Sublime Skin Tattoos –
RJ - Hudson , Luiz Fonseca e Stefano Mike (Piercing)
2001 - Casa dos Dragões -RJ - Russo, Hudson
e Tiel
2003 - Lucky Tattoo Shop – RJ - Hudson,
Henrique Mattos, (Tattoo) Rita e Taty
Qual
a vantagem de ter trabalhado em vários
estúdios diferentes?
No cenário atual da tatuagem não
sei realmente se existe muita vantagem em trabalhar
em vários estúdios, mas, na época
em que fiz essa opção foi de grande
importância para o meu aprendizado, seja
no lado técnico, artístico ou mesmo
na maneira de cativar e expor sua arte com convicção
aos clientes, já que atualmente a maioria
dos estúdios tem um número grande
de artistas e muitas vezes isso acaba causando
uma competição em vez de uma troca
de técnicas e experiências, que é
realmente o mais proveitoso de se trabalhar em
vários estúdios.
Cite as suas participações
em convenções e encontros de tatuagens.
1993 - 1º Encontro de Tatuadores e Tatuados
do Rio de Janeiro - melhor preto e cinza e melhor
colorida
1995 - 1ª Convenção de Tatuagem
da América Latina (Curitiba-PARANÁ)
1996 - La Massa- Buenos Aires - Premiado (Melhor
Braço)
1996 - 1º Tattoage Festival - Porto Alegre-RS
1997 - 1ª Tattoo Tour -Rio de Janeiro
2001 - 2ª Tattoo Tour -Rio de Janeiro - Jurado
2003 - 3ª Tattoo Tour - Rio de Janeiro -
Melhor Oriental
2003 - 2º Fortattoo- Fortaleza - Jurado
2003 - 2 ª Convenção de Goiânia
2004 - 3º Fortattoo- Fortaleza - Melhor série
de desenhos
Todas convenções internacionais
de São Paulo de 1996 até 2003.
Fale sobre a experiência de trabalhar
como jurado em uma convenção de
tatuagem.
Já tive algumas experiências como
jurado em convenções, mas, na maioria
das vezes, fui convidado no dia da competição
pela organização, ao saberem que
eu não competiria. Acho que deveriam ter
critérios para o julgamento, tais como:
técnica, dificuldade e textura, e não
só olhar e achar bonito ou não,
porque é bem provável que o jurado
vá dar notas maiores aos trabalhos com
estilo que ele goste mais, mas, no geral, a experiência
é boa.
Tive
a oportunidade de conferir alguns dos seus desenhos,
todos com bastante qualidade. Na sua opinião,
um bom tatuador tem que ser um bom desenhista,
e um bom desenhista necessariamente será
um bom tatuador?
Eu acredito que não existem regras para
se tornar um bom tatuador, mas, sem dúvida
alguma, ser um bom desenhista e ter um bom aprendizado
pode tornar a evolução na arte muito
mais rápida. Isso não quer dizer
que um bom desenhista vá se tornar um grande
tatuador, não se deve esquecer que tatuagem
é um desenho na pele e que um desenho pode
se tornar uma tatuagem. Acho, também, que
há um determinado momento na carreira de
um tatuador em que ele adquire técnica
suficiente para tatuar quase tudo e a limitação
pode passar a ser a dificuldade dele criar ou
visualizar alguns desenhos. O mais difícil,
acho, é conseguir um equilíbrio
entre o desenho e a tattoo.
Há algum artista famoso, tatuador
ou não, que o influenciou durante a sua
carreira?
No começo, mesmo à distância,
me influenciava por alguns grandes artistas tais
como Don Ed Hardy, George Bone, Horiyoshi III,
Guy Aitchison, Filip Leu e Timoty Hoyer entre
outros. No Brasil admiro o trabalho do Mauricio
Theodoro, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente,
e outros com quem tive a oportunidade de trocar
experiências, como Pepeu, Lango Nator, Marcos
Ribeiro, Ricardo Passos e Wagner Gorni entre outros.
Já na arte em geral, gosto muito de Salvador
Dali , H.R Giger, Burne Hogarth e outros mais.
O que te dá mais prazer na arte
de tatuar?
A satisfação e a felicidade de um
cliente ou amigo após o fim de um trabalho.
Você recomendaria esta profissão,
qual seria o perfil de um bom candidato?
Como profissão não indicaria, mas,
como expressão artística, sim. Porque
acho que a parte profissional está sendo
colocada na frente da parte artística e
acredito que não deveria ser assim. A profissão
deve ser uma conseqüência da arte.
Quero dizer que uma pessoa deve tatuar bem o bastante
e até ganhar muito dinheiro com isso e
não começar a tatuar já perguntando
quanto se pode ganhar. Quanto a um bom candidato,
alguém que já se expresse artisticamente
seja na pintura, escultura, grafite ou qualquer
arte pode ter muito mais facilidade de aprender
e evoluir.
Com que olhos você vê a crescente
exposição da tatuagem na mídia?
Vejo de modo natural, já que tudo hoje
em dia está super exposto a mídia,
só que prefiro que a mídia seja
especializada na arte, ou pelo menos que à
respeitem e admirem, mas não é uma
coisa que eu goste muito.
O
que você diria aos "tatuadores"
de rua e aos "tatuadores" que não
trabalham com assepsia, higiene e segurança?
Aos tatuadores de rua nada, mesmo porque no Rio
não há muitos. Quanto à assepsia,
é uma parte muito importante para o crescimento
da arte e não há como deixá-la
de lado.
Um representante dos tatuadores na política,
o que você pensa sobre isto?
Acho que ainda falta muito tempo para isso acontecer,
e não vejo muita necessidade. Se o artista
trabalhar com ética e dentro da lei dificilmente
terá algum tipo de problemas com o governo.
Em algum momento já pensou em
parar ou parou de tatuar?
Não, nunca parei nem tive esse tipo de
pensamento. Só vou parar de desenhar e
tatuar por algum tipo de limitação
física.
Como você vê a tatuagem daqui
a dez anos?
Como eu via há 10 anos atrás. Há
mais ou menos dez anos tive a percepção
que a tatuagem, no Brasil, evoluiria como na Europa
ou América do Norte, pela grande população
que temos aqui. Vi que criar desenhos para tattoo
era de grande importância para essa evolução,
então comecei a desenvolver séries
de desenhos e tentei encontrar um estilo para
minhas tattoos. Ao mesmo tempo tentava incentivar
outros tatuadores pois isso era importante, pois
nós poderíamos fazer a arte crescer
no futuro. Acredito que em outros lugares do Brasil
muitos tatuadores também fizeram o mesmo
e, ao meu ver, foi o que mais mudou nesses anos.
Hoje vejo como os tatuadores mais novos dão
importância ao desenho e ao estilo diferenciado,
talvez isso também tenha feito o "mercado",
como alguns dizem, crescer e tomar a proporção
que tomou hoje, mesmo que de maneira desordenada.
Por outro lado o nível de qualidade das
tattoos evoluiu muito e isso significa mais clientes
satisfeitos, porque acho que a maioria quer ter
uma bela tattoo, e muitos podem pagar bem por
isso. Sendo assim, daqui a dez anos, vamos ter
um número muito grande de artistas com
um alto nível e é possível
que a arte cresça como nunca aqui no Brasil.
É o que eu espero.
Uma
palavra para os futuros tatuados e futuros tatuadores?
Aos futuros tatuados digo que procurem um artista
que possa realizar o trabalho que eles pretendem
fazer. Não procurem por preços como
uma mercadoria qualquer porque uma tatuagem ruim
é muito difícil de ser retirada
totalmente e nem sempre uma cobertura funciona.
Aos futuros tatuadores, primeiro que respeitem
os outros e que tenham sorte porque o caminho
é longo e é preciso muita determinação
para não deixar de evoluir. Nem sempre
o que outros tatuadores dizem é o que serve
para você, mas para quem sabe ouvir sempre
se pode tirar algum proveito e aprender muito.
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