
Dezembro 2003 |
Estúdio: S. A. Tattoo
Cidade: Santos - SP |
Por: Thiago Monteiro Bittencourt Para
começar, gostaria de saber como foi seu
primeiro contato com a tattoo no sentido de ser
tatuada.
A idéia da minha primeira tattoo veio de
uma entrevista que um tatuador deu para a folha
de São Paulo, há 18 anos atrás
(eu tinha 12 anos). Na entrevista ele contou que
tinha feito a sua primeira tatuagem com nanquim
e agulha em casa... Coisa feia, mas fiz o mesmo...
Depois só fui ter uma tatuagem de verdade
aos 17 anos, pelas mãos de um tatuador
que começava junto comigo, Fábio
Rodriguez.
E qual foi a reação de
sua família ao verem uma garota de apenas
12 anos com uma tattoo?
Minha mãe ficou uma fera. Minha família
era muito católica e conservadora... Mas
depois de uns anos foram vendo que isso não
mudava nada na minha vida e aceitaram muito bem.
Meu pai tinha uma tattoo do Lucky, mas mesmo assim
custou a aceitar as minhas tatuagens.
Seu pai tinha uma tattoo do Lucky! Que
interessante! E o que você tem a falar da
experiência do seu pai com a tattoo que
ele fez?
Meu pai fez a tattoo dele com o Lucky quando tinha
18 anos. Foi logo quando o Lucky chegou ao Brasil.
Ele teve muitos problemas com a família,
que ficou chocada com sua atitude. Daí
saiu de casa e foi trabalhar para não ter
que dar satisfações sobre o que
fez. Meu pai faleceu em 95, e nunca o tatuei,
infelizmente. Quando comecei a tatuar ele já
estava doentinho, mas com certeza ele ficaria
contente de ter uma tatuagem minha. Depois que
eu comecei a tatuar recebi muito apoio da minha
família, que acabou entendendo a minha
escolha.
Homem de atitude hein! E você,
depois dessa tattoo que você mesma fez,
já sabia que queria viver da tatuagem?
Eu adorava tatuagem, nem pensei muito. Foi uma
conseqüência do amor à arte.
Há quanto tempo você é
tatuadora profissional e qual sua idade?
Tenho 30 anos, mas a minha história com
tattoo foi um pouco complicada. Comecei aos 18,
depois dei um tempo e trabalhei com maquiagem
definitiva até 99, quando voltei a tatuar
comercialmente. Neste meio tempo fazia uma ou
outra tatuagem para clientes do salão,
mas não tatuava todos os dias.
Legal
isso... maquiagem definitiva é interessante,
ajuda a corrigir imperfeições. Você
gostava de trabalhar com maquiagem definitiva,
nessa ocasião você trabalhava em
casa, em salão ou estúdio?
Trabalhava em um salão que tinha e por
isso comecei com as correções.
Trabalhar com correções é
gratificante, porque, muitas vezes, nós
tiramos um grande peso das costas do cliente.
Quando você decidiu trabalhar com
tatuagem já começou em estúdio
próprio, em casa ou estúdio de outro
tatuador?
Sempre em estúdio próprio. Paralelamente
ao meu salão eu tinha um estúdio
de tattoo, em sociedade com meu ex-marido, também
tatuador, onde tivemos alguns funcionários.
Você já sentiu algum tipo
de discriminação ou desconforto
por ser tatuadora?
Algumas vezes sim, e sempre luto contra isso.
As pessoas encaram como hobby, ou como uma coisa
de pessoas irresponsáveis.
Ser mulher e tatuadora é muito mais complicado.
Os outros tatuadores (muitos deles), se sentem
incomodados também. Tem as mães
das crianças da escola dos meus filhos
que estranham um pouco... Mas isso a gente combate
com muito trabalho e determinação.
Muita gente encara a tattoo como algo
passageiro, e ainda a vêem como uma coisa
marginalizada. Uma mulher tatuando não
é comum e isso despertam vários
pensamentos. Como você luta contra isso,
apenas mostrando trabalhos de qualidade ou com
conversa também?
Acho que depende do tipo de preconceito e da pessoa
com a qual estamos lidando. Às vezes é
só ignorar, às vezes precisamos
conversar e mostrar que as opiniões estão
erradas e, ocasionalmente, não tem jeito,
precisamos ser mais duros. Acho que dependendo
do tipo de discriminação, o mais
certo é processar a pessoa judicialmente.
Você
já se envolveu em algum processo por discriminação
desse tipo?
Eu cheguei a ameaçar, mas não precisei
processar. Uma empresa de cartão de crédito
havia se recusado a cadastrar o meu estúdio
a receber os cartões. Alegaram que não
interessavam tatuadores, só interessavam
"médicos, advogados, dentistas e pessoas
desta alçada". Com estas palavras.
Ameacei processá-los e pronto.
No dia seguinte estava aqui a máquina dos
cartões instalada. Uma empresa que está
merecendo um processo por discriminação
é a Roche, por causa de um panfleto sobre
hepatite C que eles distribuíram em clínicas,
hospitais e consultórios, dizendo que piercing
e tatuagem transmitem hepatite. E ponto final.
Não explicam nada mais. Assim, um leigo
que lê aquilo, primeiro vai achar que pega
hepatite só pelo fato de se tatuar. E depois
vai ter medo de se relacionar com pessoas que
tenham tatuagem ou piercing, porque a hepatite
é altamente contagiosa. Imaginem a segregação
que isso pode trazer.
As pessoas ainda precisam evoluir muito
em relação à tatuagem e tudo
o que ela envolve. É claro que, como em
todas as profissões, existem irresponsáveis,
que contribuem apenas para denegrir a imagem da
profissão e da arte. O que você diria
para quem quer começar a tatuar?
Primeiro de tudo: Não façam nada
sem ter muita segurança. Se não
tiverem um BOM curso por perto, tentem um estágio
em um estúdio, leiam bastante sobre biossegurança
e busquem muita informação. Tatuagem
é coisa séria.
Outra coisa: É preciso amar muito essa
profissão.
Mallu, qual o seu estilo preferido para
tatuar?
Celta, embora tenha muito pouca procura. Faço
mais desenhos femininos e coloridos, e também
muitas tattoos orientais.
Por você ser mulher seu público se
torna mais feminino nesse caso, elas se identificam
mais com outra mulher por trás da máquina?
Elas se sentem mais à vontade com uma mulher,
e ainda mais quando tatuam virilha, seios, nádegas...
Alguns homens também gostam de se tatuarem
com uma mulher, por acharem que dói menos...
Eu acho que o profissional independe do sexo.
Quando entro na sala para tatuar, não sou
homem nem mulher, sou o profissional.
Geralmente as pessoas acham que as mulheres
são mais cautelosas e meticulosas. Você
concorda com isso?
Acho que a maioria é sim. É questão
de cultura.
Você falou que prefere tatuar desenhos
celtas, que, geralmente, são cheios de
detalhes. Você gosta de desenhos mais complexos
para serem tatuados?
Gosto. Acho que fazer um trabalho cheio de detalhes
é mais desafiador, exige maior concentração,
por isso é mais prazeroso.
Dá para tentar desafiar os limites
da pele e da arte, por assim dizer?
Depende do cliente. Tem alguns clientes que nos
dão carta branca para tatuar. É
nesta hora que dá para ser mais criativo.
Tatuar é uma "arte compartilhada".
Tem o artista e a base, que é o cliente.
E a nossa tela tem opinião, então
nem sempre o trabalho fica da melhor maneira que
poderia ficar, apenas por isso.
Mallu, você fez alguma faculdade?
Não, embora esteja pretendendo prestar
para Biomedicina, para poder fazer algumas pesquisas
sobre cicatrização e pigmentação
da pele.
Qual
sua maior dificuldade quando começou a
tatuar?
A falta de apoio de alguns amigos tatuadores.
Você tem algum projeto envolvendo
a tatuagem?
Tenho vários, temos um evento que vai ser
realizado em janeiro de 2004, aqui em Santos,
que fará uma retrospectiva na história
da tatuagem no Brasil, e que contará com
uma área homenageando ao Mr. Lucky, que
é o pai da nossa profissão aqui
no país, e que esteve em Santos durante
muitos anos, marcando uma época. Fora isso
pretendemos logo fazer uma convenção
aqui na cidade, que é um dos meus sonhos,
com um perfil um pouco diferente das demais até
então.
Você já participou de alguma convenção,
já trabalhou no exterior?
Estive na convenção de 2000, mas
nos moldes das convenções de hoje
acho um pouco desconfortável tatuar. Recebi
alguns convites para trabalhar fora, na Suíça
e nos Estados Unidos, mas não iria. Eu
amo demais o meu país, e minha cidade.
Aqui é o meu lugar. Existe uma convenção
feminina no Canadá, da qual eu tenho vontade
de participar. Acho que sair do Brasil, só
por alguns tempos - questão de dias –
e as viagens só valem a pena para acrescentarem
experiência de trabalho.
Conte sobre a Escola Santista de Tattoo.
Fale um pouco sobre ela, quem fundou, quais os
objetivos, desde quando funciona, o que é
preciso para entrar nela?
A escola estará começando em breve.
A primeira turma começa em novembro. O
objetivo é formar profissionais seguros,
com um bom treinamento de traço, com uma
base concreta de biossegurança e com noções
de ética, entre outras coisas. A escola
vai dar desde o básico de montagem de agulhas,
até trabalhos mais complicados como coberturas
de cicatrizes com fibroses, nas quais temos que
trabalhar a textura da pele. Para o curso de tatuagem
é imprescindível um bom portifólio
de desenho. Teremos cursos de tatuagem, piercing,
maquiagem definitiva e manutenção
e montagem de máquinas, além de
um curso livre de desenho, enfatizando a aplicação
em tatuagem. Além disto, teremos vários
workshops trazendo novidades em técnicas
e equipamentos.
De
todos os artistas de tattoo do mundo, com qual
você não perderia a chance de se
tatuar de forma alguma e qual estilo seria?
Poxa, um só é difícil. Adoro
o Anil Gupta e seus celtas, Adoro o TinTin com
seus trabalhos realistas, o Stephane, do Graphicaderme,
na França também, com uns rostos
muito expressivos, e o Guy Aitchison e seus desenhos
no estilo caleidoscópio. Faria uma de cada.
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