Brasil, 20 de agosto de 2008
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 Dezembro 2003
Estúdio: S. A. Tattoo
Cidade: Santos - SP

Por: Thiago Monteiro Bittencourt

Para começar, gostaria de saber como foi seu primeiro contato com a tattoo no sentido de ser tatuada.
A idéia da minha primeira tattoo veio de uma entrevista que um tatuador deu para a folha de São Paulo, há 18 anos atrás (eu tinha 12 anos). Na entrevista ele contou que tinha feito a sua primeira tatuagem com nanquim e agulha em casa... Coisa feia, mas fiz o mesmo... Depois só fui ter uma tatuagem de verdade aos 17 anos, pelas mãos de um tatuador que começava junto comigo, Fábio Rodriguez.

E qual foi a reação de sua família ao verem uma garota de apenas 12 anos com uma tattoo?
Minha mãe ficou uma fera. Minha família era muito católica e conservadora... Mas depois de uns anos foram vendo que isso não mudava nada na minha vida e aceitaram muito bem. Meu pai tinha uma tattoo do Lucky, mas mesmo assim custou a aceitar as minhas tatuagens.

Seu pai tinha uma tattoo do Lucky! Que interessante! E o que você tem a falar da experiência do seu pai com a tattoo que ele fez?
Meu pai fez a tattoo dele com o Lucky quando tinha 18 anos. Foi logo quando o Lucky chegou ao Brasil. Ele teve muitos problemas com a família, que ficou chocada com sua atitude. Daí saiu de casa e foi trabalhar para não ter que dar satisfações sobre o que fez. Meu pai faleceu em 95, e nunca o tatuei, infelizmente. Quando comecei a tatuar ele já estava doentinho, mas com certeza ele ficaria contente de ter uma tatuagem minha. Depois que eu comecei a tatuar recebi muito apoio da minha família, que acabou entendendo a minha escolha.

Homem de atitude hein! E você, depois dessa tattoo que você mesma fez, já sabia que queria viver da tatuagem?
Eu adorava tatuagem, nem pensei muito. Foi uma conseqüência do amor à arte.

Há quanto tempo você é tatuadora profissional e qual sua idade?
Tenho 30 anos, mas a minha história com tattoo foi um pouco complicada. Comecei aos 18, depois dei um tempo e trabalhei com maquiagem definitiva até 99, quando voltei a tatuar comercialmente. Neste meio tempo fazia uma ou outra tatuagem para clientes do salão, mas não tatuava todos os dias.

Legal isso... maquiagem definitiva é interessante, ajuda a corrigir imperfeições. Você gostava de trabalhar com maquiagem definitiva, nessa ocasião você trabalhava em casa, em salão ou estúdio?
Trabalhava em um salão que tinha e por isso comecei com as correções.
Trabalhar com correções é gratificante, porque, muitas vezes, nós tiramos um grande peso das costas do cliente.

Quando você decidiu trabalhar com tatuagem já começou em estúdio próprio, em casa ou estúdio de outro tatuador?
Sempre em estúdio próprio. Paralelamente ao meu salão eu tinha um estúdio de tattoo, em sociedade com meu ex-marido, também tatuador, onde tivemos alguns funcionários.

Você já sentiu algum tipo de discriminação ou desconforto por ser tatuadora?
Algumas vezes sim, e sempre luto contra isso. As pessoas encaram como hobby, ou como uma coisa de pessoas irresponsáveis.
Ser mulher e tatuadora é muito mais complicado. Os outros tatuadores (muitos deles), se sentem incomodados também. Tem as mães das crianças da escola dos meus filhos que estranham um pouco... Mas isso a gente combate com muito trabalho e determinação.


Muita gente encara a tattoo como algo passageiro, e ainda a vêem como uma coisa marginalizada. Uma mulher tatuando não é comum e isso despertam vários pensamentos. Como você luta contra isso, apenas mostrando trabalhos de qualidade ou com conversa também?
Acho que depende do tipo de preconceito e da pessoa com a qual estamos lidando. Às vezes é só ignorar, às vezes precisamos conversar e mostrar que as opiniões estão erradas e, ocasionalmente, não tem jeito, precisamos ser mais duros. Acho que dependendo do tipo de discriminação, o mais certo é processar a pessoa judicialmente.

Você já se envolveu em algum processo por discriminação desse tipo?
Eu cheguei a ameaçar, mas não precisei processar. Uma empresa de cartão de crédito havia se recusado a cadastrar o meu estúdio a receber os cartões. Alegaram que não interessavam tatuadores, só interessavam "médicos, advogados, dentistas e pessoas desta alçada". Com estas palavras. Ameacei processá-los e pronto.
No dia seguinte estava aqui a máquina dos cartões instalada. Uma empresa que está merecendo um processo por discriminação é a Roche, por causa de um panfleto sobre hepatite C que eles distribuíram em clínicas, hospitais e consultórios, dizendo que piercing e tatuagem transmitem hepatite. E ponto final. Não explicam nada mais. Assim, um leigo que lê aquilo, primeiro vai achar que pega hepatite só pelo fato de se tatuar. E depois vai ter medo de se relacionar com pessoas que tenham tatuagem ou piercing, porque a hepatite é altamente contagiosa. Imaginem a segregação que isso pode trazer.

As pessoas ainda precisam evoluir muito em relação à tatuagem e tudo o que ela envolve. É claro que, como em todas as profissões, existem irresponsáveis, que contribuem apenas para denegrir a imagem da profissão e da arte. O que você diria para quem quer começar a tatuar?
Primeiro de tudo: Não façam nada sem ter muita segurança. Se não tiverem um BOM curso por perto, tentem um estágio em um estúdio, leiam bastante sobre biossegurança e busquem muita informação. Tatuagem é coisa séria.
Outra coisa: É preciso amar muito essa profissão.

Mallu, qual o seu estilo preferido para tatuar?
Celta, embora tenha muito pouca procura. Faço mais desenhos femininos e coloridos, e também muitas tattoos orientais.

Por você ser mulher seu público se torna mais feminino nesse caso, elas se identificam mais com outra mulher por trás da máquina?
Elas se sentem mais à vontade com uma mulher, e ainda mais quando tatuam virilha, seios, nádegas... Alguns homens também gostam de se tatuarem com uma mulher, por acharem que dói menos...
Eu acho que o profissional independe do sexo. Quando entro na sala para tatuar, não sou homem nem mulher, sou o profissional.

Geralmente as pessoas acham que as mulheres são mais cautelosas e meticulosas. Você concorda com isso?
Acho que a maioria é sim. É questão de cultura.

Você falou que prefere tatuar desenhos celtas, que, geralmente, são cheios de detalhes. Você gosta de desenhos mais complexos para serem tatuados?
Gosto. Acho que fazer um trabalho cheio de detalhes é mais desafiador, exige maior concentração, por isso é mais prazeroso.

Dá para tentar desafiar os limites da pele e da arte, por assim dizer?
Depende do cliente. Tem alguns clientes que nos dão carta branca para tatuar. É nesta hora que dá para ser mais criativo. Tatuar é uma "arte compartilhada". Tem o artista e a base, que é o cliente. E a nossa tela tem opinião, então nem sempre o trabalho fica da melhor maneira que poderia ficar, apenas por isso.

Mallu, você fez alguma faculdade?
Não, embora esteja pretendendo prestar para Biomedicina, para poder fazer algumas pesquisas sobre cicatrização e pigmentação da pele.

Qual sua maior dificuldade quando começou a tatuar?
A falta de apoio de alguns amigos tatuadores.

Você tem algum projeto envolvendo a tatuagem?
Tenho vários, temos um evento que vai ser realizado em janeiro de 2004, aqui em Santos, que fará uma retrospectiva na história da tatuagem no Brasil, e que contará com uma área homenageando ao Mr. Lucky, que é o pai da nossa profissão aqui no país, e que esteve em Santos durante muitos anos, marcando uma época. Fora isso pretendemos logo fazer uma convenção aqui na cidade, que é um dos meus sonhos, com um perfil um pouco diferente das demais até então.

Você já participou de alguma convenção, já trabalhou no exterior?

Estive na convenção de 2000, mas nos moldes das convenções de hoje acho um pouco desconfortável tatuar. Recebi alguns convites para trabalhar fora, na Suíça e nos Estados Unidos, mas não iria. Eu amo demais o meu país, e minha cidade. Aqui é o meu lugar. Existe uma convenção feminina no Canadá, da qual eu tenho vontade de participar. Acho que sair do Brasil, só por alguns tempos - questão de dias – e as viagens só valem a pena para acrescentarem experiência de trabalho.

Conte sobre a Escola Santista de Tattoo. Fale um pouco sobre ela, quem fundou, quais os objetivos, desde quando funciona, o que é preciso para entrar nela?
A escola estará começando em breve. A primeira turma começa em novembro. O objetivo é formar profissionais seguros, com um bom treinamento de traço, com uma base concreta de biossegurança e com noções de ética, entre outras coisas. A escola vai dar desde o básico de montagem de agulhas, até trabalhos mais complicados como coberturas de cicatrizes com fibroses, nas quais temos que trabalhar a textura da pele. Para o curso de tatuagem é imprescindível um bom portifólio de desenho. Teremos cursos de tatuagem, piercing, maquiagem definitiva e manutenção e montagem de máquinas, além de um curso livre de desenho, enfatizando a aplicação em tatuagem. Além disto, teremos vários workshops trazendo novidades em técnicas e equipamentos.

De todos os artistas de tattoo do mundo, com qual você não perderia a chance de se tatuar de forma alguma e qual estilo seria?
Poxa, um só é difícil. Adoro o Anil Gupta e seus celtas, Adoro o TinTin com seus trabalhos realistas, o Stephane, do Graphicaderme, na França também, com uns rostos muito expressivos, e o Guy Aitchison e seus desenhos no estilo caleidoscópio. Faria uma de cada.


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