
Setembro 2004 |
Estúdio: MTattoo
Cidade: Florianópolis - SC |
Por: Amana
Rodrigues
Marcelo Soares, 39 anos, amante das artes desde
a infância, formado em Programação
Visual e tatuador desde meados do ano 2000, concedeu
ao Portal Tattoo Brasil uma entrevista muito proveitosa
em que nos revelou ser um profissional consciente
e interessado em seu trabalho com a tatuagem. Confira
na íntegra, como este tatuador (sem tatuagens)
concilia, perfeitamente, suas as duas profissões
em que atua com muita dedicação:
Como
surgiu seu interesse pela arte em geral?
Na verdade, esse interesse surgiu quando ainda era
criança e um dos meus brinquedos favoritos
eram lápis e papel. Como um bom aquariano,
me desligava de tudo e criava meu próprio
mundo no papel.
Fale um pouco sobre seus primeiros trabalhos
artísticos:
No início, ainda na escola, eu me interessava
em tudo que era arte, desenho, escultura, pintura,
fotografia, mas foi criando logomarcas e charges
que ganhei meu primeiro trocado com a arte.
Eu me formei em 1993 na Faculdade da Cidade no
Rio de janeiro, em Programação Visual.
Como foi sua vida profissional até
começar a tatuar?
Quando terminei a faculdade já trabalhava
há muito tempo nas agências de propaganda
e isso foi muito bom, pois já estava no
mercado de trabalho e com uma grande experiência.
Depois fui só evoluindo e acabei trabalhando
em grandes agências do mercado brasileiro
e internacional, conquistando até prêmios
como Diretor de Arte.
O que o levou a se interessar pela tatuagem?
Foi meio inesperado. Estava na cidade de Búzios
quando minha namorada, hoje minha esposa, resolveu
fazer uma tatuagem com um amigo, também
artista plástico, hoje conhecido como George
M.
George foi à nossa casa, com todo o equipamento
(já que não tinha um estúdio)
e foi a primeira vez que tive um contato direto
com um profissional dessa área. Folheei
cada página das revistas de tatuagens que
havia com ele e perdi a conta de quantas perguntas
lhe fiz durante o trabalho.
Depois de Búzios, fiz questão que
ele fosse à minha casa no Rio, tatuar outras
amigas afins e aproveitar para tirar mais dúvidas.
George me deu uma grande força para aprender
a tatuar e a partir daí, fiquei completamente
determinado a isso.
Como
foi o processo pelo qual passou até se
tornar um tatuador profissional?
Quando resolvi me dedicar mais, comprei um desses
kits que vem com tudo, para ter um contato maior
com o equipamento. Depois fui procurar algum estúdio
que oferecesse um curso no Rio de janeiro, não
consegui. Então, parti para conseguir algum
trabalho ou estágio nesses estúdios
e ficou ainda mais difícil. Mesmo não
conseguindo uma ajuda mais eficaz, arranquei algumas
dicas como, por exemplo, tatuar em pele de porco,
que a meu ver, é muito difícil,
pela pouca elasticidade da pele já morta.
Ninguém acreditava nisso até me
verem fazendo. Depois que tinha o domínio
da máquina nas mãos, comecei a tatuar
de graça, mas apenas trabalhos pequenos
e totalmente pretos como pequenas tribais, sem
muitos detalhes.
Eu me surpreendi com a rapidez com que vinha dominando
a técnica, até que resolvi dar um
salto maior e procurei cursos especializados.
Com uma enorme dificuldade de encontrá-los,
me matriculei no Marco Tattoo no Bairro do Limão
em São Paulo. Foram vários dias
de curso intensivo, vivendo a rotina de um estúdio
de tatuagem e piercing, da solda de agulhas ao
sombreado.
Voltei para o Rio com a certeza de que iria me
tornar um profissional
Em 2002, me transferi para Florianópolis
fugindo do stress do Rio de Janeiro e em setembro
de 2003, inaugurei o M Tattoo - Tatuagem e Piercing,
depois de passar mais uma temporada em São
Paulo aprendendo a técnica de Piercing
no mesmo Marco Tattoo com a Piercer Dani.
Hoje o Marco é um grande amigo, como toda
a sua equipe e sempre que posso, vou à
São Paulo visitá-los e trocar idéias
sobre esse universo que é a Body Art.
Como você foi para as pessoas à
sua volta, quando tomou sua decisão de
trabalhar com a tatuagem?
Esse é um assunto que me deixa muito feliz,
pois tive, sem restrições, incentivo
total de minha família, amigos e principalmente
de minha esposa. A partir daí, foi a vontade
enorme de aprender a técnica e ter uma
outra opção de Arte. Acho que naquela
época, o meu maior repressor era eu mesmo.
Tentava me ver a todo o momento como um tatuador
profissional e tinha dúvidas quanto a isso,
pois haveria de abdicar de toda uma carreira na
publicidade. Mas no fim, estou aqui.
Porque é tão importante,
para os iniciantes, a orientação
de um profissional na área?
A aplicação de uma tatuagem ou de
um piercing é uma coisa muito séria,
pois envolve a sua saúde e a de outras
pessoas. Ambientes e procedimentos inadequados
tornam as doenças, que tem seu contagio
através do sangue um risco muito grande
para tatuador e cliente. E uma boa orientação
de um BOM profissional especializado pode tornar
esse tipo de serviço totalmente seguro.
Alguns tatuadores ainda preferem ver esse tipo
de trabalho apenas como arte. Mas isso vai muito
além. A arte está embutida no talento
do profissional empregada juntamente com uma técnica
repleta de detalhes e cuidados. E essa orientação
deve vir não só de um tatuador profissional,
mas de outros profissionais nas áreas de
saúde e arte. Como é para cursos
como Artes plásticas, Odontologia e Medicina.
O caminho é longo e difícil já
que não existe ainda uma escola nessa área.
Mas é importante que você esteja
bem preparado pra oferecer esse tipo de serviço.
Para você, é essencial que
um tatuador já tenha um envolvimento prévio
com a arte, ou tenha domínio do desenho
à mão livre?
Isso pra mim foi essencial para desenvolver o
meu trabalho. Quando o tatuador já tem
esse domínio, ele pode criar e modificar
qualquer desenho que lhe aparece. Eu, por exemplo,
sempre que o cliente me dá essa liberdade,
procuro modificar e melhorar os desenhos encontrados
nos catálogos. Com isso, posso oferecer
um trabalho mais personalizado. Alguns tatuadores
não possuem um conhecimento técnico
de pintura ou desenho, mas possuem a mão
firme e, juntamente com a experiência, podem
realizar um trabalho de alto nível. Agora,
para quem não tem nenhuma aptidão
para o desenho é melhor escolher outra
profissão. Vejo muitas tatuagens ruins
por causa disso.
Quando se tornou um tatuador, você
abandonou sua outra profissão ou mantém
as duas em paralelo?
Nunca vou abandonar a Publicidade e a Programação
Visual. Estão na veia. Mesmo porque ainda
recebo inúmeros pedidos para realizar trabalhos
nessa área.
Em que uma profissão influencia
na outra?
Em tudo. Quem desenvolveu e desenvolve meus sites
e o meu material de divulgação sou
eu mesmo. E isso me dá um enorme prazer.
Quais foram as principais diferenças
sociais e culturais em relação à
tatuagem, que você pôde perceber quando
se mudou do Rio de Janeiro para Florianópolis?
Em relação à tatuagem, as
duas cidades se parecem muito, tanto na procura
como nos estilos. A única diferença
que me chama atenção é que
em Florianópolis, um grande número
de pessoas ainda dá mais valor para o custo
do trabalho do que para a qualidade do trabalho
e para o ambiente limpo e seguro do estúdio.
E isso tem que mudar. Sempre digo que, em escala
de importância, a pessoa que quer fazer
uma tatuagem ou colocar um piercing primeiro tem
que procurar um ambiente seguro e limpo, depois
a qualidade do trabalho e por último, o
preço.
Você já foi questionado
por algum de seus clientes pelo fato de não
haver tatuagens em seu corpo?
A todo o momento sou questionado sobre isso. Na
verdade, tudo isso começou quando fui procurar
estágio em um estúdio. Lá,
conheci um tatuador cuja metade do corpo era coberto
de tatuagens muito ruins feitas por ele mesmo
no início da profissão. Além
de eu não ter sido muito bem recebido,
ele me disse que a única maneira que eu
teria de aprender a tatuar era me tatuando e isso
me bateu como um desafio, acho. Hoje, isso surpreende
muita gente e, já aconteceram várias
vezes, do cliente optar pelo meu trabalho por
esse fato específico.
Você vai me perguntar se isso é um
bom marketing. Não sei dizer... (mais risos)
O que os outros tatuadores dizem disto?
A maioria dos tatuadores que conheço são
amigos e conhecido dos amigos, sempre rola uma
gozação sobre essa minha “virgindade”...
Mas todos respeitam minha posição
e depois, não sou o único, existem
outros tatuadores como eu.
Você
tem restrição a algum estilo de
desenho para tatuar?
Não, não tenho. Mas sempre que aparece
algum cliente querendo tatuar nome ou o retrato
de um namorado ou até esposa ou marido
tento remover essa idéia de todas as formas,
mas nunca me recuso a fazê-lo.
Qual é seu estilo favorito de
desenho?
Na minha vida profissional me especializei em
criar personagens como nos cartoons, como pode
ser comprovado no meu site www.marcelosoares.com.br
. Mas durante esses anos sempre precisei trabalhar
com todos os estilos, pois uma campanha publicitária
nunca é igual à outra. E na verdade,
acabo por gostar de todos e passei esse gosto
pra tattoo.
Você já nos disse que faz
sua própria publicidade, quais são
as vantagens disto?
Além de criar todos os anúncios
e impressos, procuro sempre estar ligado no que
existe de bom como veículo de propaganda...
E estou sempre em contato com o pessoal da mídia
e do comércio local. Você nunca pode
deixar de divulgar seu trabalho.
A vantagem é você ter uma resposta
rápida e mais controle do que esta funcionando
ou não em matéria de divulgação.
Mas a melhor propaganda de um Estúdio ou
do profissional é o seu trabalho, o famoso
“boca a boca”. Uma pequena estrelinha
bem contornada vai atrair um enorme dragão.
Pode estar certo disso.
Financeiramente falando, a tatuagem é
um bom negócio?
Todo empreendimento em que você acreditar
e se dedicar vai se tornar um bom negócio.
Ainda mais se você amar aquilo que faz,
que é o meu caso. Meu estúdio tem
apenas um ano e apesar de pouco tempo estou feliz
com o resultado até agora.
O bom humor e a irreverência, características
marcantes da produção publicitária
brasileira e de vários personagens no seu
site, são também características
da sua personalidade?
Tenho certeza que sim, a arte e as idéias
sempre estão relacionadas ao seu criador
e isso nunca vai mudar em qualquer lugar do mundo.
Isso influencia seu modo de trabalhar?
Você sempre deve deixar o cliente à
vontade e mostrar pra ele que você esta
ali para ajudá-lo e orientá-lo da
melhor forma possível. E isso inclui também
na hora dos procedimentos que pra muitos é
uma hora tensa. Então, nada como um pouco
de humor e descontração pra quebrar
o nervosismo. Muitos de meus clientes se tornaram
meus amigos muito por causa disso. Isso sem falar
da Lu, minha esposa e sócia, ela segue
a mesma filosofia e em matéria de atendimento
não existe nada igual a ela.
Arte, trabalho e Internet: Comente um
pouco sobre a correlação que possa
haver, entre estes assuntos, na sua opinião:
A Internet é a grande invenção
depois da televisão. Daqui a algum tempo
nenhuma economia sobreviverá sem essa rede.
Sem falar nos setores de pesquisa, compra e venda,
divulgação etc... É incrível
no que ela pode nos ajudar. Um exemplo bom disso
foi um cliente que me procurou para tatuar uma
ossada de um velociraptor, passei uma semana pesquisando
ossadas desse dinossauro em sites sobre geologia
e o resultado foi uma ossada estilo tribal que
vocês podem conferir aqui mesmo no Portal
Tattoo Brasil, nas minhas fotos.
Qual
mídia você tem percebido ser a mais
eficaz para o anúncio de estúdio
de tatuagem, em um grande centro urbano?
Quando o estúdio ainda é pouco conhecido
é importante você atrair clientes
do seu próprio local... Uma boa mídia
é um jornal de bairro e distribuição
de folhetos, depois com o crescimento desse público
já se pode pensar em uma mídia eletrônica
como o rádio, mas deve-se planejar bem
e destinar uma verba especifica para isso.
Tatuagem na televisão: Quais são
os benefícios e/ou malefícios que
você percebe na superexposição
da tatuagem nesta mídia?
A exposição da tatuagem nessa mídia
vem crescendo muito e a televisão é
um grande veículo e deve, sim, ser usada
para divulgar esse trabalho e seus profissionais,
popularizando cada vez mais essa arte. Mas deve-se
cuidar para que informações importantes
ligadas à saúde também cheguem
ao público mostrando o que é um
serviço seguro.
Em alguns programas, a tatuagem e o piercing são
tratados de uma forma sensacionalista e a qualidade
da apresentação fica a desejar,
com a falta de informações para
as pessoas que os assistem. Como posso tatuar
alguém em um auditório se, pelas
regras da vigilância sanitária, isso
não é o ideal?
É complicado. Alguém já viu
uma cirurgia plástica ou um tratamento
odontológico em um palco? Os profissionais
convidados têm que se preocupar com isso.
Você acha que as pessoas estão
sendo influenciadas a se tatuar pelos programas
de tv?
Claro que sim. A tatuagem e o piercing, na sociedade
moderna, sempre estiveram presentes, mas estavam
restritos a um mundo marginalizado e já
há algum tempo vem saindo dos guetos e
ganhado força em outras classes sociais
e principalmente no meio artístico, através
dos ídolos que são vistos em novelas,
filmes, programas, entrevistas e etc. E como sabemos,
a televisão ainda é o maior veículo
de massa que existe, alcançando milhões
de pessoas, mas discordo quando dizem que esse
momento não passa de uma moda passageira.
A tatuagem e o piercing estão em franca
evolução, tanto profissionalmente
como na queda do pré-conceito para esse
tipo de adorno. E esse tipo de atitude, como estética
ou expressão, veio pra ficar, SIM.
Para
fazer uma logomarca, você precisa descobrir
qual é a “cara” do seu cliente,
ou qual imagem ele pretende passar. Você
consegue captar traços da personalidade
das pessoas através dos desenhos que elas
escolhem para se tatuar? Ou, ao contrário,
conhecendo um pouco seu cliente, você é
capaz de ajudá-lo a encontrar um desenho
com o qual se identifique?
Claro, e acho isso muito importante, pois muitos
aparecem sem saber ainda o que querem realmente
e num bate papo você descobre do que ele
gosta de fazer, coisas como religião, tipo
de música, o que estuda ou em que trabalha
e muitos outros assuntos podem te levar a que
linha de desenhos pode agradar mais esse cliente
e você passa a orientá-lo da melhor
forma. Assim, as chances dele sair insatisfeito
ou de um futuro arrependimento é zero.
Hoje em, dia você é mais
procurado para fazer marcas NAS pessoas ou PARA
elas? (rs)
Com certeza NAS pessoas. Agora tenho meu próprio
estúdio e com um trabalho sério
e de qualidade você acaba se tornando conhecido
e atraindo mais pessoas pra aquilo que você
mais se dedica.
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