
Setembro 2003 |
Estúdio: Irezume Tattoo
Cidade: Belo Horizonte
- MG |
Por: Thiago Monteiro Bittencourt
Ronaldo Seth, 30 anos, teve seu primeiro contato
com a tatuagem aos doze anos. É formado em
Licenciatura Plena em Desenho e Artes Plásticas,
pela FUMA. Sempre desejou poder ganhar a vida através
da arte, e, hoje, atingiu seu objetivo pela tatuagem.
Seu hobby: estudar japonês e se dedicar a
aulas de pinturas de kanjis.
Conte-nos
como foi seu primeiro contato com a tatuagem.
Meu primeiro contato com a tatuagem foi aos
doze anos de idade, ocasião em que fui tatuado
pela primeira vez. Estava numa cidade do interior
e era “moda” ter uma tatuagem
feita com agulhas amarradas com gominha e embebidas
em tinta nanquim. Achei bonito e me apaixonei. Esse
contato foi bem caseiro mesmo, a tatuagem foi feita
por uma pessoa que resolveu se embrenhar pelos caminhos
da tattoo, mas nada profissional. Mas o primeiro
contato com a tatuagem sempre é assim.
Quando se deu seu primeiro contato com
a tattoo você já decidiu que era
o que desejava seguir como profissão?
Não, mesmo tendo tido contato com a tatuagem
e sendo tatuado, eu nunca havia pensado em seguir
essa carreira. Tive sempre essa paixão
porque a arte não tem fronteiras, ela se
expande. A arte, como diria o genial Fernando
Pessoa, “A arte, não a história,
que é a mestra da vida”. Então
a arte, já que não tem fronteiras,
tem várias designações, várias
formas de se manifestar.
Então quando eu entrei para a faculdade,
um amigo falou: “Ronaldo, porque você
não começa a fazer tatuagens, você
tem facilidade com desenhos, não creio
que vã ser dificuldade pra você”.
Achei graça daquilo, depois refleti bastante
sobre o assunto e comecei.
E essa reflexão durou quanto
tempo, entre ter a idéia e pegar a famosa
“cobaia”, falar “vem aqui, vamos
fazer uma tattoo?”
Bem, eu já visitava um estúdio de
um amigo, e isso facilitou a aquisição
de material, que, desde o início, sempre
foi profissional.
Daí eu comecei a tatuar alguns amigos da
faculdade, logo em seguida, mas nunca pensava
em tornar disso a minha profissão.
Fiz meu primeiro trabalho em um amigo, não
gostei do resultado, e pensei em desistir logo
no início. Depois que já estava
dominando as técnicas chamei-o e fiz um
cover-up.
Essa
evolução dos materiais usados para
a tatuagem foi fator crucial para que a arte pudesse
se desenvolver como um todo, tanto na qualidade
dos trabalhos quanto no que se refere às
possibilidades de trabalhar a pele com vários
estilos de desenhos, com uma riqueza quase infindável
de detalhes. A tecnologia caminha lado a lado
com a melhoria dos trabalhos. Fale um pouco sobre
isso.
Muito bem colocado o que você falou, esse
dado é realmente importante.
Exatamente, é impossível desenvolver
um trabalho bom com materiais defasados. Esse
desenvolvimento de materiais foi essencial para
a nossa profissão.
O tatuador precisa saber trabalhar com o equipamento
com perfeição, com a regulagem das
máquinas, solda de agulhas de modo correto,
tudo isso.
Você começou a tatuar já
com materiais profissionais, e isso é uma
sorte que poucos têm. Hoje em dia temos
à nossa disposição muitas
informações sobre a tatuagem, como
revistas especializadas, sites, e até mesmo
algumas reportagens na televisão. Qual
a dica que você daria para quem está
começando a tatuar?
A dica fundamental que eu daria a todos que estão
ingressando nessa área é a persistência,
sem se importar com as opiniões indesejáveis
de terceiros que, de alguma forma, tentam criar
obstáculos pra quem está iniciando.
Em se tratando de críticas construtivas
eu acho que elas são bem-vindas, dependendo
da situação. Além do mais
eu recomendaria ao pessoal investir em material
de qualidade e, também, na medida em que
forem galgando os degraus da arte, irem tatuando
cada vez melhor, fazendo o possível e dando
tudo de si, se desejar fazer disso sua profissão.
Mas tem de gostar muito em primeiro lugar!
Você falou que fez faculdade de
Desenho e Artes Plásticas. Chegou a se
graduar?
Sim, me graduei em 1996.
Como
você fez faculdade de Artes, gostaria de
saber quais os artistas clássicos que te
influenciaram de alguma forma ou os que têm
sua preferência?
Na época da faculdade, os artistas com
os quais deparei com os trabalhos deles foram
Vicent Vangog, que carrega muito sua obra de amarelo,
e, hoje em dia, há tatuadores que trabalham
com o estilo new school e que têm preferência
pela cor amarela. Sabendo trabalhar com o amarelo,
tanto na pele quanto em telas ou papel, podemos
chegar a resultados maravilhosos. E as pessoas
que vêem trabalhos com essa cor, na sua
maioria, gostam muito.
De artistas atuais eu gosto muito dos trabalhos
do Giger, que faz trabalhos maravilhosos, algo
que, eu diria, nossos olhos de primatas ainda
não alcançam aquela visão
futurista que ele já tem.
Influência no meu ramo não há
uma específica, pois, desde quando comecei
até atualmente, consultando revistas especializadas,
tanto nacionais quanto importadas, eu me deparo
com trabalhos que muito me surpreendem, tanto
no que se refere a tatuagens como, também,
a desenhos.
Dos artistas considerados os ápices
da tatuagem mundial, com quais você faria
uma tatuagem e ual estilo seria?
Seria com o japonês Nakano Horioshi, porque
ele trabalha de maneira muito singular com o estilo
oriental. No estilo realístico em me tatuaria
com o Dawei Zang, porque gosto muito da maneira
que ele combina efeitos de claro e escuro, luz
e sombra. Ele tem, realmente, uma técnica
fenomenal.
Fora trabalhar com tatuagens, você
tem alguma outra atividade?
Sim, até o ano passado eu lecionei em escolas
do ensino médio e fundamental a disciplina
de educação artística. Como
disse, sempre quis fazer da arte o meu meio de
vida. Antes trabalhava com implementos publicitários
numa micro-empresa.
Há
quanto tempo você trabalha profissionalmente
com a tatuagem?
Há exatamente dez anos comecei a tatuar,
em 1993.
Em estúdio comecei este ano, no Tattoomaníacos.
Quantas tattoos você tem no corpo?
Em média 11, mas algumas emendam umas com
as outras e se transformam em um só desenho.
Fora tatuagens, o que você gosta
de fazer quando está com o tempo livre?
Qual(is) seu(s) hobby(s)?
Meu curso de língua japonesa, o qual faço
mais por diversão, e não por obrigação,
já que não há nada que me
imponha fazer isso.
Eu sonho em algum dia ir para o Japão,
se possível trabalhando com tatuagem, pois
tenho um amigo japonês que mora em Tóquio
e que trabalha com tattoo.
Fiz também um curso de shudi, que é
a técnica de escrever os kanjis com o pincel
próprio na técnica japonesa mesmo.
Qual(is)
o(s) estilo(s) que você prefere tatuar?
Realístico, oriental também gosto
muito, porque a beleza desses estilos é
inconfundível.
Como você enxerga o cenário
da tatuagem em Belo Horizonte hoje em dia?
A tatuagem aqui em BH atualmente está expandindo
cada vez mais, como em toda parte. Vários
artistas daqui estão se despontando nesse
cenário merecendo o devido o reconhecido
respeito pelo que fazem, sejam estes trabalhos
de qualidade ou não, pois cada artista
deixa ali seus limites de capacidade de realizar
um trabalho na pele do cliente.
Então acredito que todos merecem respeito,
pois se o cliente se identificou com o trabalho
daquele profissional, quem somos nós para
julgar?
Tem alguma parte do corpo que você
não tatua, e qual foi a parte mais exótica
que já tatuou?
Nunca tatuei órgãos genitais, pois
são regiões de muitas veias e de
grande possibilidade de inflamação.
Aqui em Belo Horizonte não há muito
público que procure esse tipo de tattoo
ou até mesmo body piercing.
Qual o estilo de música que você
gosta de ouvir quando está tatuando?
Agrada-me muito ouvir um black metal por causa
das batidas cadenciadas, e também curto
hard-core.
O
que você acha das associações
e sindicatos de tatuadores que estão surgindo?
Eu encontrei pontos positivos porque leva a uma
maior organização da profissão,
tornando o ramo mais organizado. A tatuagem não
passa mais a ser uma coisa qualquer, uma coisa
de aventureiro.
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