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 Fevereiro 2006
Estúdio: Snoopy Tattoo
Cidade: São Paulo / SP

Por: Amana Rodrigues


Ainda aos 14 anos você teve seus primeiros contatos com a tatuagem. Como foi ter esta experiência tão novo?
Sempre fui fascinado pelo novo, tudo que é diferente me atrai e com a tatuagem não havia de ser diferente; o meu primeiro contato com o mundo da tattoo foi quando eu tinha 13 anos e foi fascinante. Naquela época era difícil ver uma pessoa com uma tatuagem profissional. Só se via aquelas feitas com agulhas amarradas na linha e embebidas no nanquim muito mal feitas...No ano de 1983 conheci a tatuadora Medusa e foi nesta época que tive minhas primeiras aulas de tattoo.

O que diziam as outras pessoas da sua idade na época em que começou a conhecer esta arte?
Nesta época a tatuagem era uma arte totalmente marginalizada e eu ouvia coisas do tipo: "pare com isso!" ou "tatuagem não dá futuro para ninguém", "isso é coisa de vagabundo", "Isso não é profissão" Porém, a única opinião que me importava na ocasião era a da minha mãe e posteriormente, a da minha namorada, que hoje é minha esposa, Com o apoio delas pude provar aos outros, com o tempo, que era possível ser alguém com esta arte "marginal"...

Seus primeiros passos na tatuagem fora assessorados pela por ninguém menos que a tatuadora Medusa, como foi este processo?
A Medusa me ensinou o básico, como montar uma maquina, tirar e aplicar um decalque e me disse: "o traço é assim e a pintura é assado". Depois disto, tive que me empenhar muito, aprender mais a cada dia e nunca achar que já sabia tudo, pois a cada trabalho que realizo, adquiro mais conhecimento, ou seja, são vinte anos aprendendo. O mais importante que aprendi com ela foi; que se você quer mesmo alguma coisa, tem de ir atrás dela com muita persistência! ...


Você conheceu a técnica da tatuagem utilizando-se de instrumentos simples, feitos a partir de a pequenos aparelhos elétricos. Como você foi, pra você, essa imensa evolução tecnológica da tatuagem?
Montei minha primeira máquina com um motorzinho de gravador e a modernizei (risos) troquei o motorzinho que vivia quebrando por uma “lady shave”, pois quebrava menos e assim funcionou por uns bons dois ou três anos. Na época era muito caro e difícil comprar uma profissional, as máquinas eram feitas artesanalmente, uma a uma e isso encarecia muito o produto. Hoje existem até linhas de produção e com isso a arte deu um "boom" assustador! Compram-se máquinas em qualquer esquina. A vantagem é que com máquinas e tintas melhores, aliadas ao talento do tatuador, podem-se realizar trabalhos incríveis!

Assim como a grande maioria dos tatuadores, você começou tatuando seus próprios amigos e, por conta disso, provavelmente já se deparou, anos depois, com algum trabalho feito no início do seu aprendizado. Como é poder perceber sua evolução técnica, artística e profissional na pele das pessoas?
Já me deparei, sim! De muitos deles, consegui reformar ou cobrir a tatuagem, mas também tem muitos que, pela amizade de tanto anos, não deixam eu nem encostar a mão. Alguns falam até com certo orgulho: “essa daqui foi feita quando ele começou a tatuar" - e aí senta que lá vem história... (risos) A vantagem disto é que me permite perceber o quanto melhorei e aprimorei minha técnica, me permitindo fazer uma avaliação do que esta ocorrendo com o meu trabalho ao longo dos anos. Sou o critico mais ferrenho dos meus trabalhos, se hoje eu realizo um trabalho e o considero perfeito, amanhã já consigo achar os erros e dizer; que preciso melhorar nisso ou naquilo. Acredito que só assim conseguirei melhorar e chegar onde quero.

Você teve sua primeira loja montada na garagem de um amigo, conte-nos quais foram as dificuldades pelas quais passou até os dias de hoje, em que trabalha em um estúdio próprio na cidade de São Paulo:
Minha primeira loja foi montada na garagem da casa de um amigo. Tinha uns doze metros quadrados e ainda era dividida com um letreiro, com que eu tinha em sociedade. A maior dificuldade era conseguir desenhos e materiais de qualidade e clientes também, pois na época eu era um completo desconhecido. Hoje melhorou bastante, minha loja é bem situada e equipada e eu sou um pouco mais conhecido, dá pra manter as contas em dia (risos).

Você aperfeiçoou seu trabalho estudando e pesquisando técnicas de desenho e pintura, qual é a importância, na sua opinião deste tipo de conhecimento para um profissional da tatuagem?
Aprendi muita coisa sozinho, realizando "experiências" nos clientes, e, para minha sorte, sempre saía como o esperado. Estudei desenho e técnicas de pinturas, o que acho imprescindível para alguém se tornar um ótimo profissional. Basta ver que os melhores tatuadores também são ótimos pintores e desenhistas como, por exemplo, Mauricio Teodoro, Mordenti, Guy Aitchirson, Anil Gupta, entre centenas de outros.

Muita coisa mudou na comunicação entre os profissionais de tatuagem de alguns anos pra cá. Como acontecem as trocas de informação entre os profissionais hoje em dia?
Hoje em dia, como o advento da Internet, as trocas de informações voam muito rápido. Existem grupos de discussões, MSN, orkut, os portais e, além disso, as convenções. Antigamente, as informações eram passadas de boca a boca e você tinha que ser amigo de um tatuador experiente para receber uma boa dica ou então conseguir comprar revistas "gringas" e descobrir como fazer. Meu caso, por exemplo; foi assim durante muito tempo.Hoje é tudo muito mais fácil.


Você tem seus trabalhos representados em diversos paises do mundo como EUA, Japão, Alemanha, Itália, Austrália, Hawai, Argentina e Chile. Como você se sente em relação a isto? O que dizem as pessoas ao saber que se tratam do trabalho de um brasileiro?
Sinto-me muito orgulhoso, como qualquer um se sentiria. Não dizem muito, creio eu, pois os tatuadores brasileiros são bem respeitados em relação ao trabalho pela facilidade de que temos em realizar todos os estilos e temas. Os gringos são bons, mas geralmente fazem um só tipo de estilo ou tema. São raros os que se destacam por fazerem vários estilos, mas aqui no Brasil, em breve será assim, já que a nova geração esta assim, não são todos, mas a grande maioria já esta se especializando em um ou dois estilos. Creio que seja uma tendência até mesmo pela grande demanda de tatuadores...

Todo tatuador recebe alguma influência através do trabalho de outros profissionais. Quais são os tatuadores que você mais admira no universo da tatuagem?
Tenho meus preferidos, é claro, mas admiro todo tatuador que trabalha bem, e com seriedade. A cada ano vejo surgir excelentes profissionais. Eu gosto da arte de tatuar em toda a sua plenitude e curto tatuagens de todas as épocas. Minha principal influencia vem de um tatuador chamado Dawei Zhang, sou fã de carteirinha dele. Mas acho que todo bom tatuador influencia de alguma maneira o meu trabalho, no sentido de incitar a melhorar e aperfeiçoar a minha técnica e ir em busca da perfeição, a cada dia e a cada novo trabalho.

O que mais mudou na tatuagem através das gerações, seja no âmbito artístico, técnico ou social?
Creio que tudo... Num âmbito artístico e técnico, hoje em dia temos verdadeiras obras de artes, no social, creio que esta sendo mais aceita, mas ainda com alguns resquícios de preconceito.

Você já participou de diversas convenções. Qual foi a sua participação mais proveitosa?

Todas pra mim foram bem proveitosas, seja no lado técnico da profissão. trocando informações com outros tatuadores, ou seja, no lado pessoal fazendo novas amizades. Eu particularmente vou para poder participar e rever amigos que, muitas vezes, só posso ver nestas ocasiões, Geralmente, faço novas amizades, aprendo um pouco mais, faço contatos profissionais e me divirto muito, pois passo o ano inteiro trabalhando na loja; e ter que trabalhar nas convenções não dá... Prefiro me divertir.

O que nunca deve faltar em uma convenção de tatuagem?
As premiações. Quase todo mundo que vai fica ansioso por esse momento. Só acho que as premiações deviam ser mais as claras, para que não pairassem duvidas sobre os ganhadores. Acho que falta aos organizadores criar uma maior interatividade entre os tatuadores e piercers, promovendo palestra e workshops, como acontece em algumas convenções do exterior. Se bem que não sei se daria certo por aqui. pois muitos só pensam em tentar tirar o prejuízo, mas a esperança é a ultima que morre.

Você já ajudou alguém em início de carreira na tatuagem? Estaria disposto a repartir seus conhecimentos?
Já ajudei muita gente em inicio de carreira, pessoas que hoje em dia nem me dirigem a palavra. Sempre reparti o conhecimento que eu fui adquirindo com o passar dos anos e continuarei fazendo isto, porém hoje, escolho melhor as pessoas.


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