Brasil, 10 de March de 2010

Atual
Lister Boris - Parte II
Arquivo
Lister Boris - Parte I
Primeira tatuagem - Parte II
Primeira tatuagem - Parte I
Hepatite B
Escrita Japonesa
Máquina de Tatuagem
Tatuagem Passo-a-Passo
Estudo das cores



Por Amana Rodrigues

Lister Boris atravessou as três Américas acompanhado de sua paixão pela tatuagem, até que aportou no Rio de Janeiro. Ele está sempre presente nos eventos de tatuagem e, sempre que sobra um tempo, abre as portas para uma boa conversa. A última vez que nos falamos foi em um evento em Belo Horizonte e o papo foi tão bom que decidimos transformá-lo nesta matéria. Embarquem com o tatuador atuante mais antigo do país e descubra como foi que Lister Boris ganhou o mundo em busca de sua arte. Boa viagem!






Lister Boris nasceu em 1946, em Valparaiso, no Chile, onde viveu com seus pais (um índio araucano e uma judia de origem européia) até os três anos de idade, quando se mudou com sua família para a Argentina. Aos sete, Boris foi com sua mãe buscar o leite em pó que ela ganhara e acabou ganhando um álbum de figurinhas que acompanhava a lata. Algumas das figurinhas retravam indivíduos do povo Maori, da Nova Zelândia, com seus complexos desenhos pelo corpo. O menino foi imediatamente encantado e, durante anos, ficou pensando como seria possível inserir um desenho na pele.

Aos 13 anos, Lister consegui fez a descoberta. Em uma excursão escolar a uma catedral, na Argentina, distanciou-se de seu grupo e encontrou, nas imediações, um homem que fazia desenhos da Virgem de Lujan na pele das pessoas. Boris, então, ficou ali alguns instantes, vendo como o trabalho era feito. Tempos depois, começou a fazer suas tatuagens a mão, usando uma agulhinha de bordar e preparando a tinta com fuligem, um pouco de álcool e vaselina.

No ano de 1967, pegou sua bicicleta e deu início a sua viagem pelas três Américas, cujos custos, ficavam, em parte, por conta das tatuagens que fazia de forma primária. Descobriu a máquina elétrica em 1968, no Panamá, onde também conheceu a Jim´s Suhy Tattoo. Permaneceu no país por algum tempo, tatuando marinheiros e outras pessoas que atravessavam o Canal do Panamá e adquirindo experiência, até que seguiu viagem já com seu próprio material elétrico.



Depois de passar por diversos países da América Central, sempre tatuando e nas mais diversas situações, Boris se instalou em Acapulco, no México. E em 1976, retornou para a América do Sul para se fixar no Brasil, onde reside e trabalha até os dias de hoje.



Quando chegou ao Brasil, pelo porto de Santos, foi logo falar com o Dinamarquês Lucky, o primeiro tatuador a inserir a arte no país. Ao revelar-lhe sua vontade de ficar no país para tatuar, Lucky recomendou a Boris se fixasse em outro lugar, que não em Santos. Ficou decidodo, então, que iria para o Rio de Janeiro.

No início, chegou a abrir uma pequena loja, mas foi em uma academia de artes marciais que encontrou o espaço que precisava. Tatuou muita gente e foi tendo seu trabalho reconhecido até que sua arte chegou à televisão: a produção de Flávio Cavalcanti o convidou para ir a público defender o seu trabalho. E Boris o fez tão bem que a repercussão do programa rendeu-lhe outras matérias em importantes jornais e revistas do país, sempre falando sobre seu ofício.



Mais tarde, foi convidado a tatuar com Caio Tattoo, no Arpoador e lá trabalhou cerca de quatorze anos, até que se mudou para Saquarema. Esta foi localidade que escolheu para construir seu lar e onde abriu sua própria loja.
                











 

 



Inicio da página 

Quem era o seu público na época em que chegou ao Brasil?
Você se lembra? “Menino do Rio... dragão tatuado no braço...” tinha muito surfista e continuaram chegando marinheiros, né? Todos levavam o cartão espalhavam que tinha um bom trabalho em tal lugar.As pessoas que trabalhavam no porto também se tatuavam muito, mulheres também... Mas outros também, como professores, psicólogos começaram a se tatuar nesta época. Tem uma edição do Última Hora (jornal) que um psicólogo dizia justamente isso, que todas as facções sociais começaram a ser tatuadas, que o estigma de desvio de comportamento começou a sair, nesta época. Ele fez uma matéria depois que se tatuou comigo.

Como é que as pessoas ficavam sabendo, naquela época, que você era tatuador?
Na época, o tatuador não ganhava tanto dinheiro pra investir em propaganda, hoje em dia é diferente. Imagina: se eu fazia uma tatuagem bonita, quantas pessoas veriam esta tatuagem na praia? Umas trezentas, quinhentas pessoas, por aí. A maior divulgação era o bom trabalho do tatuador. Aí, a pessoa via uma tatuagem e dizia: “eu quero também” e a outra dizia “vai lá, em tal lugar”. A gente marcava o horário e fazia uma atrás de outra. Nesta época, era o Lucky lá (em Santos) e eu no meu lugar. Mas também tinha alguma divulgação, sim. Eu mandava fazer um carimbo, comprava folha branca, cortava com estilete e carimbava à mão: BORIS TATTOO. "Ta! Ta! Ta!" Era assim. (risos)



Seu trabalho começou quando a tatuagem ainda era muito reprimida e marginalizada. A polícia já chegou a interferir em seu trabalho?
Sim, já. Em Buenos Aires, por exemplo, a tatuagem era proibida representar uma senha particular. A polícia criou uma espécie de lei contra os tatuadores. Aqui no Brasil, fui preso em 73, aos 28 anos, por estar trabalhando com tatuagem. Havia um correio perto do Arpoador, no Rio, eu estava lá, tatuando à mão e a policia me pegou (risos). Não é bonito de se contar, mas foi assim que aconteceu (risos). Mas fui solto rapidinho, no outro dia tava tatuando de novo (risos).

Em 1980, você foi convidado a participar do programa de Flávio Cavalcanti, um dos ícones da TV, na época, como isto aconteceu?
Quando fui a Fálvio Cavalcanti em 25 de maio de 1980, ele disse que eu pensasse bem, pois ele iria me massacrar. Mas o que ocorreu foi o contrário. Quando fui ao seu programa, minutos antes de entrar ele me chamou para conversar e percebeu que meu trabalho era sério, que eu era uma pessoa direita, que estava fazendo um trabalho artístico e digno. Tanto que, durante seu programa, ao contrário do que havia me dito, ele acabou me defendendo quando se iniciou uma discussão, com um dermatologista que também estava no palco. Depois disso, ainda me lançou na revista Fatos e Fotos. Acabamos ficando amigos.

Você teve o privilégio de acompanhar toda a evolução da tatuagem no Brasil, viu surgir cada novo artista e, provavelmente, percebeu quando as mulheres começaram, devagar, a investir na profissão. Como isso aconteceu?
Tem algumas "meninas" aí que se intitulam como as tatuadoras mais antigas do Brasil, mas isso não é verdade. A primeira tatuadora foi a Ana Velho, que já deve estar cinqüentona. Começou em 76, por aí. Ela tatuava muito ali na Praça General Osório, no Rio, abriu uma lojinha em 78 ou 79... Mas hoje em dia ela não se manifesta mais, sumiu, não sei onde está. Ela sim é a mais antiga tatuadora deste país, é uma pena não estar em exercício.

E as tatuagens de sua pele, o que são?
As minhas tatuagens, são imagens muito importantes, com certeza. São retratos da minha história, são passagens da minha vida.


Tanta história não caberia em apenas neste espaço. Confira, na segunda parte de nossa matéria, um pouco da história de Lucky, o primeiro tatuador do Brasil, contada com propriedade e respeito por Lister Boris."Eu o admimirava porque ele era viajante, assim como eu, um conquistador.E também porque era uma boa pessoa. Não era como hoje, que as pessoas cultuam gratuitamente o nome de Lucky. Eu nem deveria falar estas coisas, mas é verdade, ninguém nem sabe onde ele está enterrado." E venha também viajar pela visão antropológica de Lister sobre o fenômeno da tatuagem, que é um assunto muito interessante. Até a proxima!

© 2003 - 2008 Portal Tattoo. Todos Direitos Reservados